quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Casa Mal-Assombrada - Parte 5

Vi a lua nova afundando em um lago negro profundo. Sentia a água em meus pés descalços, estava muito fria, abaixei e a toquei com suavidade com a ponta dos dedos, não sabia o porquê, andei mais para o fundo e à medida que a água subia por minhas pernas uma onda de dores vinha de tão gelada que se encontrava. Tentei me manter imóvel, mas por que eu não conseguia parar? Quanto mais andei mais ela se apossava do meu corpo. As dores eram como levar vários choques, um atrás do outro, um mais doloroso que o outro. A água batia na minha cintura quando parei. Olhei em volta.
Uma mulher morena lavava suas roupas, seus cabelos eram cheios e lisos ate a cintura, usava trajes curtos, como uma blusa suja ate o começo da barriga e uma calça solta cinzenta ate os joelhos. Olhei bem para ela, mas seus olhos não me encontraram, meus pés começaram a seguir novamente. Tentei pará-los, mas não conseguia. Tentar gritar? Chamar? Como fazer isso se eu não tinha cordas vocais? Fui afundando mais e mais, quando finalmente tocou meu rosto, fechei os olhos, até ficar completamente submersa, tentava gritar com medo de me afogar, mas nada saia, então não senti, pisei com mais força no solo do lago, a areia entrava entre meus dedos e eu respirava como se estivesse em terra firme, abri devagar as pálpebras e o lago negro como a sua superfície. Não via nada além da obscuridade naquelas águas. Desde que havia visto a mulher, não teria parado de andar. Assustada, com medo, poderia até ficar com calafrios, aos poucos pude olhar pra cima e ver que já estava chegando à superfície, com o coração apertado, meus olhos se colocaram pra fora daquelas águas. Eu a olhava diretamente. A mulher arregalou seus olhos pequenos, em pé, desabou no chão, ela me olhava com o mesmo medo que Vivian havia me olhado.
“Quem é você?” – Perguntei. Mas como já esperava nenhum som.
Fui me aproximando dela, e minha visão escureceu de repente...
Silêncio...
Medo...
Não sentia mais a areia em meus pés, estava flutuando em algum lugar. Um grito veio até mim, gritos de uma mulher, gritos que fizeram doer meus ouvidos.
Aos poucos, pude ver árvores grandes, ainda me sentia ensopada pela água, com meus cabelos e roupas pesadas, meus olhos ardiam um pouco, foi fácil ignorar, me meti no meio daquela selva.
Parei ao ouvir:
- Anne... – Uma voz grossa me chamou por trás de mim, como se ela estivesse parada com os lábios perto do meu ouvido.
Virei rapidamente tentando encontrar quem sussurrava meu nome, mas nada. Agora a voz suspirava um suspiro barulhento e violento segui quase correndo, tentando me guiar por aonde vinha o som, até tropeçar em alguma coisa. Cai no chão, mas não estava machucada. Sentei e olhei para meus pés querendo descobrir o que teria causado minha queda. Prendi a respiração ao deparar com uma mão estendida, com marcas roxas e alguns arranhões pequenos. Debaixo de varias plantas, a mulher que vi na beira do lago, cheia de arranhões como as do braço, mas sem nenhum profundo. Os olhos pequenos abertos e sem vida. Morta.

Acordei assustada. Mais uma vez aqueles sonhos estranhos me atormentavam, e junto com ele a dor de cabeça, em minha mente eu perguntava:
“Porque isso está acontecendo comigo?”.
Meus olhos lagrimavam e soluços escapavam da minha boca. Botei as mãos em cima dos olhos, e enquanto me acabava com minhas lagrimas, o som do suspiro veio em meus ouvidos como um sopro.
- Pare. Por favor, pare... – Eu suplicava, não sabia pra quem, mas não agüentava mais.
Já se passavam das 11 da manhã quando finalmente eu já me sentia bem o bastante para encarar os rostos de sempre – Pelo menos eu esperava que sim – Abri a porta do quarto e dei de cara com Will parado na porta como uma estatua.
- Ah, oi, eu já ia chamar você...
Eu o fiquei encarando. Acho que ele esperava uma resposta, mas continuei calada, mas sorri timidamente pra ele. Ele passou a língua em volta dos lábios e se pôs a prosseguir - Você vem com a gente hoje?
- Sim, claro.
Ele passou as mãos nos cabelos, bagunçando-os mais do que já estavam, eu pelo visto não era a única a acordar tarde, Will ainda estava apenas com sua calça xadrez e uma blusa branca sem mangas, debaixo dos seus olhos estavam nossas amigas olheiras, ainda sentia meus olhos lagrimarem um pouco, então virei um pouco o rosto para que não percebesse.
- Ta tudo bem? – Perguntou virando o rosto para encontrar meus olhos.
Abaixei a cabeça. Cruzando os braços a altura do peito
- Sim, claro. Por que não estaria? É apenas uma coisa deve ter caído nos meus olhos – Suspirei. Puxando o ar e levantei o olhar tentando encará-lo.
Não estava pronta nem disposta a contar meus sonhos, as mudanças na minha vida, meus problemas para ele nem pra ninguém.
- Eu tenho cara de otário? O que você tem?
As lagrimas começaram a se dispersar pelo meu rosto, e não pude me conter a me aproximei mais dele. Passei meus braços ao redor da sua cintura, encostei meu rosto em seu peito esquerdo, onde conseguia ouvir seu coração bater calmamente, sentia sua respiração e o calor que seu corpo transmitia ao meu. Consciente eu jamais faria isso, tanto porque me faltava coragem, mas eu precisava de alguém, Sophie? Ela não estava lá agora. Minha mãe? Nem morta. Não queria procurar consolo eu queria apenas me sentir protegida, e foi o que eu senti quando Will passou os braços por cima dos meus, seus dedos, aqueles mesmos dedos grossos que haviam tocados os meus em um fim da tarde de um pôr-do-sol, alisando meus cabelos negros, o apertei mais um pouco e eu sei que ele sentiu, pois me tomou em seus braços com mais força do que antes.
- Anne... – Sua voz saiu tremula.
- Não me faça nenhum tipo de pergunta, não fale nenhuma palavra, apenas me abrace, por favor. – Soltei um suspiro de alivio, eu sabia que depois disso eu teria que encarar essas perguntas cedo ou tarde, mas opino por mais tarde.

Estávamos eu e ele no meu quarto, eu sentada na cama com as pernas cruzadas de frente pra ele, tentando dizer para mim mesma para ficar calma, que não seria tão difícil quanto parecia.
- Então... – Seu olhar era diretamente pra mim, esperando que eu explicasse por que as lagrimas por que o abraço.
Eu não podia contar... Por que eu não podia? Nem eu sabia ao certo.
- Eu tive um pesadelo.
- Com o que?
Hesitei um pouco e por fim falei:
- Com meu pai, sonhei que ele estava aqui...
Ele ficou me encarando incrédulo.
- Tudo bem, e com o que você sonhou?
- Eu já disse com meu pai.
- Uma hora você vai ter que me contar, então não prefere que seja agora?
- Não.
Por que eu fui abraçar logo ele? Porque talvez, se fosse com outra pessoa, tipo Sophie eu seria obrigada a contar sem medo, sem vergonha. Se mentisse, ela saberia, e também não é da minha natureza mentir pra ela.
- Tudo bem, quando quiser, é só chamar. – Ele se levantou e andou ate a porta, quando abriu, ele se virou pra mim e com um sorriso no canto da boca disse:
- Você mente muito mal sabia?
- Eu nem tenho duvidas.
Ele riu.
- Então depois do almoço nós vamos. Tem certeza que ainda quer ir?
- Absoluta. – Eu sabia que sair um pouco daqui iria me fazer bem, em resposta para provar que já estava melhor, sorri para ele.
Quando virou para sair, ele se virou de novo.
- Hei. Você estava acordada nessa madrugada?
- Não.
- Ouvi um barulho vindo de dentro do seu quarto.
- É que eu caí da cama. – Menti.
- E conseguiu sair ilesa?
- Tem um roxo na minha bunda, mas não fique na expectativa que algum dia você vai vê. – Segurei o riso, mas não pude conter meu bico.
Ele me olhou desconfiado, como sua mãe na noite anterior, mas deixou passar.

Não me preocupei em escolher alguma roupa bonita como Sophie. Uma calça jeans desbotada e uma blusa já eram mais do que ótimo. Prendi meus cachos em um rabo de cavalo e peguei uma jaqueta jeans. Pelo o que Will havia dito iríamos passar quatro dias dormindo na casa de um amigo dele – Isso fora o que ele disse a Silvia e a Christine. Já para nós, iríamos dormir em uma casa que diziam ser mal assombrada, para os moradores da região, claro para nós era apenas um puro mito para assustar crianças, era perfeito agora porque nos próximos dias não teríamos aula – em Salinas, iríamos divididos no Palio prateado de Will e no Chevrolet Captiva de Gabriel. Claro, minha mãe fez questão de colocar eu e Sophie no carro de Will já que ela dizia que não nos queria por em risco com um sujeito que ela não conhecia e que poderia bater o carro e nos matar, a super proteção dela era apoiada por minha tia que fez meu primo prometer que qualquer coisa ligaria e que cuidaria de nós.
Já estávamos prontos, minha mãe me encheu de beijos e me abraçou bem forte, o mesmo com Sophie, então fomos buscar Yuka, Fernando e Daniela. Yuka me contara por telefone que Daniela e Gabriel estavam se conhecendo melhor por isso ele decidiu chamá-la, quando paramos em frente a sua casa suas sardas estavam apitando ele a recebeu com um beijo no canto de seus lábios, fazendo assim Yuka fazer uma careta de nojo, ela já estava bem intima dos amigos de Will pelo o que parecia. De lá pegaríamos a estrada e pelo o que disseram o caminho era longo até lá, de seus amigos eu só conhecia dois, Gabriel e Pedro, mas agora tinha mais dois, Thiago e Rod, que eu havia visto também no primeiro dia na sala de aula.
Estava fazendo sol, agora mataria a enorme saudade que eu sentia do meu caloroso sol.
Mal havíamos saído de casa e minha mãe já ligava pro meu celular, e como sempre as mesmas perguntas.
- Anne, se você não quiser mais ficar lá, não se preocupe que eu mando seu primo trazer vocês de volta viu.
- Mãe, ta tudo bem! – Falei impacientemente.
- Ok! Só estou avisando.
Depois que passei o telefone para Sophie que estava do meu lado, as duas passaram à metade do tempo conversando.
Eu olhava para fora da janela, e um vento gostoso vinha, um vento que me fez lembrar o meu pai, olhei pro céu azul sorri mais para ele do que para mim. No caminho acabei adormecendo, me sentia tão cansada por causa do choro, do meu pesadelo, que não voltou.
Quem me acordou foi Sophie, sua expressão entusiasmada me fez ficar até mais animada, ela passou a mão no meu ombro e me puxou para perto de si.
- Por quanto tempo eu dormir? – Perguntei com a voz um pouco roca.
- Praticamente – Disse olhando seu relógio rosa de pulso – Agora fez duas horas sua dorminhoca, não dormiu a noite?
Pude ver o olhar de Will pra mim sobre o retrovisor, aquele olhar preocupado, esperando por minha resposta também.
- Tive um pesadelo...
- Com o que? – Seu olhar carinhoso e preocupado como o de Will, me fitava.
- Papai.
Ouvi um grunhido vindo do banco da frente, mas como Sophie, ignorei.
- Ele esta feliz agora que a mamãe também esta.
- Eu sei...
Vi que atenção de Sophie voltou para o lado da janela, virei o rosto para encontrar o que havia lhe chamado a atenção uma lagoa grande entre várias árvores. Engoli em seco, senti o choro vindo de novo, me contive e escondi meu rosto no pescoço de Sophie.
Só estava torcendo para que Will não tivesse visto.

Chegamos lá e o pôr-do-sol já estava sumindo, a casa fica a poucas distâncias do lago que eu tinha visto, mas pude ver o sol afundando na água.
Paramos em frente a ela, e atrás de nós Gabriel. A casa era de dois andares, um pouco menor que a da minha tia, as janelas eram grandes, a porta da direita estava quebrada, era de um branco sujo, com algumas telhas faltando.
- Se chover já era pra gente, cara – Comentou Rod a Gabriel que ainda se mantinha olhando para a enorme casa de boca aberta.
Ao entrarmos olhamos tudo ao redor, empoeirada e cheia de aranhas no teto, mas mesmo assim ainda se mantinha o luxo naquela sala, no primeiro momento Sophie se arrependeu de ter vindo, ouvia-se seus gritinhos finos de um lado para o outro, mas logo se calou e mudou de idéia em relação ao se arrepender, ficou parada maravilhada quando encontrou um armário com alguns vestidos dos antigos donos.
- São lindos! – Disse pegando um nas mãos colou o vestido branco junto ao corpo e foi para frente de um espelho – e acho que são do meu tamanho!
O armário estava no quarto em que devia ficar as garotas da época, no caso nós éramos quatro, havia duas camas velhas de madeira, mas para nos precaver havíamos levado sacos de dormir. Enquanto as outras ficavam arrumando suas camas e olhando os vestidos eu desci para explorar mais aquela casa.
No primeiro andar havia uma biblioteca enorme cheia de livros antigos caindo aos pedaços, e um escritório, em uma mesa, uma fotografia de uma senhora bem idosa segurando um caderno.
Segurei a fotografia, passei meus dedos sobre o rosto da idosa senhora. Deduzi pelas roupas que havíamos encontrado e pelo o estado da fotografia que ela seria do ano de 1833, sua expressão cansada e exausta, quem ela devia ter sido, o que devia ter feito para punirem sua casa como mal assombrada? – Me perguntei.
Abandonei a fotografia e subi para o segundo andar, devagar por causa das escadas de madeira que parecia que iam desabar a qualquer instante. Nas paredes do corredor, havia alguns retratos, todos em preto e branco mostrando a mesma senhora que estava na primeira fotografia que eu vi, estava sentada em uma cadeira junto com quatro crianças, dois meninos e duas garotas que supus que fossem seus netos. Na outra parede vi um quadro de um homem com roupas elegantes, ao seu lado outro rapaz um pouco mais alto e duas mulheres jovens um pouco menores que os dois rapazes, no colo de uma um bebê, seus rostos estavam todos arrancados, menos a do bebê.
No segundo andar havia vários outros quartos e apenas um banheiro que ficava no final do corredor, então se decidiu as garotas ficaram com o quarto da esquerda que era pequeno, nele só haveria duas camas de solteiro e um guarda-roupas – Aonde Sophie teria achados os vestidos – E os garotos ficaram com o da frente já que estavam em um número maior, em seu quarto além de camas separadas e o armário, tinha uma mesa com um abajur e um espelho de mão prateado.
Dizia à lenda que a casa era habitada por monstros sanguinários, que foram caçados até suas mortes, no entanto, eles não morriam, foram queimados, esfaqueados, enterrados vivos, enforcados, nada os matava, até que de um dia pro outro sumiram, as mortes haviam parado, disseram que finalmente haviam morrido, mas que suas almas continuavam ali, assombrando quem morasse perto. Claro, eu não acreditava naquela história ridícula.
Lembrou-me a época em que mulheres eram caçadas, acusadas de bruxaria e por isso queimadas injustamente.
Com certeza aquela família devia ter sido crucificada por causa de alguma coisa que aconteceu. Mas sem provas foram punidos mesmo assim.
Olhei mais para o retrato com os rostos da idosa e das crianças. Eles não pareciam ser cruéis ou assassinos.

Já estava de noite e depois de termos organizado tudo, os garotos quiseram dá um mergulho no lago, eu inventei a desculpa de que estava muito cansada para ir, eu queria saber mais sobre aquele lugar, me empolguei completamente por aquela história e as pessoas que haviam morado nele.
Logo depois de saírem, voltei à biblioteca, seus títulos eram totalmente desconhecidos e estranhos, a maioria falava sobre criaturas de outros mundos, antigas lendas, elfos, bruxas, lobisomens...
Revirei todos os livros no chão, lendo e relendo cada um deles, não conseguia entender o que tudo aquilo queria dizer, porque eles guardariam tantos livros sobre aquilo? Para mim não havia sentido, ou talvez apenas gostasse do assunto, encontrei alguns livros sobre política, medicina, história da França.
Comparei a lenda da casa com todas as histórias dos livros, nenhuma conclusão, nenhuma semelhança, talvez lobisomens já que eram sanguinários, mas fazia pouco sentido, nada, quando finalmente me convenci a desistir, voltei a organizar todos os livros quando um vento soprou forte fazendo abrir um livro que estava no canto do quarto, que eu esqueceria, sua capa era verde com traços de uma árvore e em baixo seu titulo: Vampiros na história.
Antes que pudesse lê, ouvi o barulho da porta de abrindo.
- Anne? – Chamou Will.
Escondi o livro atrás das costas ao vê-lo entrar na sala, estava bastante molhado, pingando, com o cabelo bagunçado, molhando todo o chão.
- Will... Cadê os outros?
- Ainda estão lá, eu vim só ver se você estava bem.
- Eu estou bem.
- Mesmo?
- Sim, eu só estava aqui vendo se conseguia achar algum livro interessante, mas apenas velhas lendas.
- Realmente, aqui você só acha livros assim, alguns chegaram a serem roubados outros queimados... – Disse ele desviando seus olhos para a enorme estante – Mas bem poucos, porque as pessoas tiveram medo de entrar na casa. O que você esta escondendo ai? – Perguntou ele percebendo que escondia algo.
- Nada.
Ele se aproximou de mim.
- Sei... “nada”, por que eu não posso ver? – Ele já estava perto o bastante para eu senti a sua respiração em meu rosto, a força envolveu seus braços em volta de mim tentando pegar o livro.
- Porque não é nada de importante! – Insistir. Empurrando pra trás.
Mas ele parou de repente, levantei o olhar ao ver o quanto estava perto de mim, olhou em meus olhos, eu podia sentir seu hálito quente em meus lábios, as gotas de água já escorriam por minhas roupas, seus lábios lentamente se aproximavam dos meus, quando finalmente eu consegui senti-los, uma imagem rápida de outra pessoa veio em minha mente, fazendo com que eu me afastasse de Will de maneira rude.
Em meus pensamentos eu só conseguia ver uma pessoa... Victor se contorcendo em dor e agonia no breve momento em que os lábios de Will encontraram os meus, tive uma visão clara. Por quê? O que estava acontecendo? Sentia uma necessidade enorme de sair correndo e ir para algum lugar longe daquela casa.
Will estava em minha frente, com os olhos confusos, tentando compreender o porquê eu teria recuado, eu o olhava, mas não o via, meus pensamentos estavam distante dali, eu sentia que a qualquer momento eu poderia explodir, comecei a sentir minhas pernas bambas e minha visão embaraçada, e logo tudo ficou escuro, e pude ouvir o estrondo do meu corpo caindo no chão.
Quando voltei a mim, havia vários rostos a minha volta, analisei cada um deles, reconhecendo todos, continuaram calados, esperando que eu falasse algo do tipo: Eu estou bem, quando eu mesma não sabia se realmente estava, deitada agora em uma cama, aos poucos quando fui conseguindo me levantar, aquela dor de cabeça veio mais forte que nunca, botei minhas mãos na minha cabeça, dando um gemido um pouco alto.
- Anne volte a deitar! – Ouvi Sophie falando ao meu lado, puxando o meu corpo para que eu deitasse de novo. – Will nós precisamos voltar, ela não pode ficar assim nesse estado.
Ao ouvir isso, tratei de voltar ao normal, lutando contra a dor de cabeça.
- Não vamos embora! – Consegui dizer.
- Anne, eu não vou deixar você desse jeito aqui. Ta louca?! – Aquilo foi mais uma acusação do que outra coisa.
- Eu já estou melhor.
- Melhor uma ova!
- Anne eu também acho que devíamos ir pra casa, se quiser podemos voltar outro dia. – Disse Yuka pegando minha mão.
Um dos garotos parados ali ia pronunciar uma objeção, mas se calou quando Yuka lhe lançou um olhar ameaçador.
- Mas eu já disse que estou bem! Aquilo foi apenas... – Pensei rápido em uma palavra que pudesse naquele momento explicar tudo. – Nervosismo.
Todos me olharam com estranheza.
Certo não foi uma palavra inteligente, mas foi a primeira que passou pela minha cabeça ao lembrar o “quase” beijo que ia receber de Will.
- Nervosismo? – Perguntou Sophie de braços cruzados.
- Sim.
- E porque esse “nervosismo”?
- Bem...
- Eu tentei beijar ela – Se manifestou Will rapidamente.
- Mas vocês não são primos? – Perguntou o amigo dele que eu não lembrava o nome.
- Somos, mas... Eu tenho meus motivos pow! Primos não podem se gostar dessa forma?
- Não.
- Sim.
Respondeu Sophie e eu ao mesmo tempo.
Eram tão poucas as vezes que discordávamos uma da outra... Aquela mudança realmente teria mudado tudo.
Voltei a sentar na cama, com um ar pensativo, eu não queria ir embora, queria continua a investigar aquela casa.
Foi então que Sophie foi mais rápida.
- Vamos ficar, mas se acontecer de novo vamos embora, sem mais nem menos!
Tentei continua séria, mas dentro de mim um sorriso gigantesco brotou.
Sophie parecia irritada com tudo aquilo, tanto que saiu do quarto bufando, batendo os pés na madeira velha do chão.
Logo todos foram, mas calmos, atrás dela, menos Will que se mantinha ainda encostado com o braço na parede me olhando.
- Anne, desculpe se... Fiz ou tentei fazer algo que você não gostou.
- Você não fez nada de errado, apenas... Fiquei mesmo nervosa – Menti.
Eram raras as vezes que eu demonstrava meu nervosismo, eu tinha a capacidade de controlar, e Sophie sabia disso, ela sabia de tudo ao meu respeito, pelo menos agora quase tudo, e sei que faria de tudo para descobrir o que estava realmente acontecendo comigo.
- Anne, como eu já disse, eu não sou ótario, nem tenho cara de um, você não estava nervosa nem aqui nem na China, mas não quero te pressionar, quando você quiser, se quiser algum dia, você conta igual ao seu pesadelo. – Ele já estava abrindo a porta para sair quando levantei em um pulo e a fechei.
- Will, quem é Victor? – Algo em mim tinha a certeza que ele sabia quem era realmente ele.
Por um momento seus olhos se arregalaram, deve ser por que eu o peguei de surpresa, ele ficou calado me olhando ate abrir um sorriso.
- É apenas um cara como outro qualquer.
- E eu sou um ET.
- Sério? Por que você nunca me contou?
- Droga! Diz quem ele é!
Agora ele me olhava sério, se aproximando de mim aos poucos, fazendo com que eu me encostasse-se à parede atrás de mim.
- Ele é apenas um cara esquisito, com uma família esquisita, que um dia chegou a morar aqui, nessa casa.
- Por que sua mãe não gosta dele?
Ele bufou.
- Coisa de família. – Ele disse desviando o olhar.
- Que eu saiba, também faço parte dessa família. – Eu o encarava sem expressão.
Ele tinha as respostas que eu queria, e eu iria consegui-las, nem que pra isso eu tivesse que enfrentar o furacão.
- Você anda se encontrando com ele! – Ele me acusou.
- Não! Ele apenas salvou minha vida duas vezes, e nem isso você e sua mãe mostram gratidão!
- Preferia que você morresse a ele encostar o dedo em você!
O fiquei olhando sem expressão. Sem conseguir dizer alguma coisa. Sem conseguir pensar em alguma coisa.
- Satisfeita?
- Demais.
- Ótimo.
Com fúria, ele pegou meu rosto em suas mãos grossas e puxou meu rosto pra perto do seu, e sentir seus lábios apertarem contra minha bochecha, quando eu botei as mãos em seu peito e o emburrei com toda força que eu tinha.
Fui me sentando bem devagar no chão, olhando pela janela e pensando, estava uma lua tão grande e brilhante, olhei para o meu relógio de pulso, eram apenas 23h30min, pensei por um longo minuto que seria bom naquele momento ir tomar um pouco de ar puro, eu precisava, mas sabia que eles nunca me deixariam sair àquela hora, vasculhei na minha mochila em busca de um papel e uma caneta, mas para a minha felicidade achei apenas um lápis desapontado, eu não pretendia demorar mesmo.
Abri apenas um lado da porta da janela, e com cuidado fui saindo, por sorte, o telhado ainda estava inteiro daquele lado, até eu tropeçar em alguma coisa e fazer meu pé abri um buraco.
- Era bom demais pra ser verdade – Murmurei para mim mesma.
Com toda a delicadeza do mundo fui tirando o meu pé e cruzando os dedos, torcendo pra que ninguém tivesse ouvido o barulho – e o buraco – que acabei fazendo. Andei ate a ponta do telhado, planejando a melhor maneira de descer, não havia muitas alternativas: Tinha queda, e queda, acho que eu optava pela queda.
Meu olhar foi ate o outro canto do telhado onde tinha uma escada de madeira escondida por plantas cheia de musgo.
- A sorte voltou a se abraçar em mim – Pensei.
Colocando meu pé no primeiro degrau desci com cuidado, me lembrei de todas as experiências com musgos que eu tivera e sabia que teria que segurar firme. Quando já estava chegando perto do chão, afrouxei as mãos, já que eu já estava praticamente a dois degraus do chão, mas quando coloquei meu pé no penúltimo degrau acabei escorregando e caindo de costas no chão.
- Queda – Bufei.
Não houve danos nem nada, mas quando olhei para o céu, estava todo estrelando, mais que naquela noite em que Victor teria salvado minha vida por mais que ele não admitisse. Eu sabia da verdade e nada do que ele dissesse ou tentasse me confundir iria mudar. Voltei a mim quando ouvi um barulho estranho vindo das árvores, levantei e fui andando entre elas, procurando alguma coisa que nem mesma não sabia o que poderia ser. Eu podia não ser fresca igual à Sophie, mas eu não era a menina natureza, pensei em voltar para não me perder mais já era tarde de mais, já estava longe demais, e já estava perdida, tudo o que eu via atrás de mim eram árvores e plantas, tudo estava escuro e aquela escuridão me fez lembrar o meu sonho, da primeira vez que havia sonhado com ele... Continuei andando me perguntando quem seria talvez apenas uma imagem que minha mente criou. Seus olhos vermelhos, toda vez que me lembrava deles era como se eu estivesse sendo hipnotizada, me perguntei se ele estaria-nos outros sonhos, ou melhor, pesadelos sem que eu tivesse percebido, talvez os sussurros...
Quando olhei para frente, pude ver uma luz, fui seguindo ela até que cheguei aquele lago que eu havia visto quando chegamos aqui, olhei para a água, lembranças, coincidências, eu queria saber. Tirei meu tênis e andei ate meus pés tocarem aquela água, igual como no meu sonho, foi como levar um choque, me abracei e pude sentir o frio agora por todo o meu corpo, olhei para frente e do outro lado uma moça, inclinei mais a cabeça para frente, para analisá-la melhor, me parecia tão familiar, estava começando a ficar mais frio, e me apertei no meu abraço um pouco mais, sentia meus dentes trincando e minhas pernas tremendo, me aproximando mais um pouco tentando vê-la melhor, meus pés já estavam submersos, logo pude ver uma coisa saindo da água, minha respiração começou a ficar mais forte do que nunca, a mulher do outro lado, estava se com a boca aberta, olhando para aquela coisa que saia das profundezas da água, seu rosto só mostrava o mais profundo ar de terror, a vi balançando a cabeça como negativo, acho que estava falando alguma coisa, mas estava muito longe para conseguir escutá-la. Incapaz de levantar e sair correndo buscando ajuda, ela foi se arrastando pra trás, seus lábios se mexiam mais e agora conseguia vê-los, mas não conseguia escutar nada, ate que ele já estava completamente na superfície em pé na sua frente, se aproximando mais e mais dela, eu fui andando pra trás aos poucos, sentindo alguma coisa dentro de mim, que eu não sabia dizer o que era logo ele se agachou ao seu lado, puxando-a mais para perto de si, ela olhava fixamente para ele, como se estivesse hipnotizada.
Meu pesadelo, eu sabia o que aconteceria, eu sabia o que ele devia ser agora tudo se encaixava claramente.
- Não... – Tentei dizer a mim mesma. Quanto mais as respostas vinham por si próprias a minha cabeça, mas a morte da mulher estava próxima, eu tinha que fazer alguma coisa. Olhei para os lados procurando algo que eu pudesse usar para chamar sua atenção, nada além de árvores atrás de mim, e plantas, quebrei um galho fino de uma árvore e o joguei em sua direção, o galho bateu na água, mas acabei conseguindo o que eu queria. A mulher estava deitada no chão, presumi que tivesse desmaiado e ele lentamente virou a cabeça para me olhar, pude sentir seus olhos em minha direção, fui recuando devagar, e o vi ele se levantando.
Sai correndo pelas árvores, estava completamente escuro e as árvores pareciam enormes e assustadoras...
Com medo? Sim. Nervosa? Sim. Assustada? Sim.
Todas aquelas imagens eram bastante familiar, mas não me lembrava de onde eram mesmo com as lembranças dos meus pesadelos às vezes tão claras, corri e corri, estava cansada demais para continuar, mas era isso ou morrer. Com o medo me dominando, estava perdida, estava com frio. Ouvi um barulho vindo do lado esquerdo e rapidamente olhei, procurei, mas nada vi, fiquei arrepiada ao ouvir um suspiro em meu ouvido direito, virei com força, levantando meu braço para tentar me defender, não conseguia mais correr, nem me mexer, cai sentada no chão, com a respiração acelerada.
Passou algum tempo, mas nada, nenhum sussurro, nenhum suspiro e já começava a me sentir mais aliviada para continuar, já conseguia pensar, e a primeira coisa que pensei é que todos deviam estar atrás de mim. Ligado pra minha mãe preocupando ela, chamando a policia, quando consegui me recompor e levantei, dei o primeiro passo, senti as mãos frias em meus braços. Quando a morte esta a poucos centímetros de você... É permitido pensar em tudo o que quiser. Rezar eu nunca rezava, pois não acreditava em Deus algum, mas agora eu não sabia no que acreditar por que a coisa mais fantasiosa estava atrás de mim, fechei os olhos, e tentando controlar meu nervosismo como sempre conseguia fazer. Suspirei fundo e soltei o ar pela boca. As mãos frias foram subindo pelos meus braços ate meus ombros, eram tão frias como se fosse gelo em minha pele, senti algo entre meus cabelos presos, fiquei paralisada, prendi a respiração quando uma das mãos segurou a liga que prendia meus cachos e a puxou devagar, fazendo meus cabelos caírem sobre os ombros, meus olhos ainda se mantinham fechados, mas agora com mais leveza.
As mãos subiram até meu pescoço, mas as palmas foram levantando, senti como se seus dedos dançassem por todo o percurso do meu pescoço sentia sua respiração calma em meus ouvidos, e eu suspirava calmamente como nunca.
- Anne... – Sussurrou ele em meu ouvido, prendi a respiração novamente – Me perdoe...
Eu abri os olhos que logo se arregalaram a ouvir aquilo, virei rapidamente, mas ele já havia sumido.

*****

Voltei para a casa, como se eu sempre soubesse a que caminho tomar, subi com cuidado a escada, que acabei escorregando de novo, mas dessa vez segurei firme para não cair.
Ao entrar no quarto, não havia ninguém, tudo estava do mesmo jeito que havia deixado, olhei para o relógio, eram agora 03h15min, estranhei demais, imaginei que estariam loucos esperando e procurando por mim, abri a porta e desci as escadas, estavam todos jogando baralho e rindo, olhei para Yuka que parecia feliz com seu jogo, e os outros pensativos.
- Hei garota sumida, quer jogar com a gente? – Perguntou Pedro.
Ele estava apenas de meias e uma bermuda os outros garotos estavam como ele, menos Will que estava encostado na porta da frente com os braços cruzados a altura do peito nu, me olhando com severidade, mas ignorei por enquanto Yuka estava vestida com seu pijama rosa bebê, Sophie estava com sua camisola amarela e Daniela. Estava com um mini short e um blusão da Hello Kitty.
- E ai Anne, como foi o passeio? – Perguntou Yuka mais concentrada em seu jogo do que em mim.
- Foi bom... Eu acho, pensei que estavam preocupados e loucos por eu ter sumido de repente.
- Eu li o bilhete com o recado que você deixou na sua cama e pensamos que seria melhor você dá um pulinho por ai mesmo só acho que você devia ter usado a porta da frente ao invés de fazer um buraco no telhado – Disse Sophie me olhando. – Menos Will que ficou implicando, querendo ir atrás de você.
Ela riu bem baixinho, olhando discretamente para Yuka que também riu.
Will continuava do mesmo jeito, me encarando sem piscar.
Eu não me lembrava de deixar nenhum recado...
Subi ignorando eles, e quando estava no meio da escada ouvi Yuka dizer.
- BATI!!!! Quero suas cuecas.
- Eu acho que você ta roubando, sua japa! – Disse Rod.
- Claro que não! Vou te mostrar a japona aqui!
Quando cheguei ao quarto, bati a porta com força e vi o tal bilhete, me aproximei dele e li em voz alta.

"Sophie, eu estava muito atordoada por causa da situação e precisava dá um passeio por ai, não demoro.


Anne.
"

Era a minha letra, mas como? Não me lembrava, não havia escrito recado algum, sentei na cama, pensando.
Não havia nenhuma caneta, nem papel apenas um lápis sem ponta, então como...
Não havia nenhuma explicação.
Deitei-me e comecei a pensar, até que finalmente chegou o sono.
Naquela noite eu não havia sonhado nem um aviso de dor de cabeça ou algo do tipo, Sophie havia me avisado que naquela manhã nós iríamos até o lago e que de noite acenderíamos uma fogueira do lado de fora da casa.

De manhã quando já estávamos a caminho do lago, me mantive calada o tempo todo, não parava nem um minuto se quer de pensar na noite anterior, no bilhete... Nele. Talvez tivesse sido um sonho... Ou como Will devia ter me acusado, eu realmente estava ficando louca
Todos já estavam dentro da água, e eu estava sentada em um tronco velho, olhando para as nuvens, fazia um sol brilhante, que grande saudade dele.
- Se sente melhor? – Perguntou Will do meu lado.
- Sim! Não preciso que VOCÊ se preocupe comigo! – Respondi secamente sem olhá-lo.
- Você é bastante misteriosa.
Não me preocupei em responder aquele comentário.
- Me desculpe por ter dito aquilo ontem... Falei sem pensar.
- Não, você apenas falou o que passou pela sua cabeça.
- Prometo contar a verdade essa noite.
Olhei para sua expressão tranqüila e serena como naquele fim da tarde no galho grosso do meu quarto.
- Gosta de histórias sobre vampiros, Anne?
Engoli em seco.
- Não, por quê?
- Estava lendo o livro que você escondia ontem, e pra estar interessada em um livro daqueles, com certeza deve ser fascinada por vampiros.
Havia me esquecido do livro completamente.
- Pode me devolver?
- Sim, claro, ia devolver ontem à noite, mas como você deu aquela fugidinha.
Ele pegou a mochila que estava no chão ao lado das outras, e me entregou o mesmo livro que eu havia achado ontem.
Passei as mãos sobre ele, queria poder lê-lo naquele exato momento, mas com os olhares de Will...
- Não vai entrar?
- Não, eu estou bem aqui no meu canto.
- Certo então. – Falou ele, levantando, e andando ate o lago para se juntar aos outros quando deu meia volta e me puxou pelo pulso, me botando no seu ombro.
- O que... O que você pensa que ta fazendo? Bote-me no chão agora!! – Joguei o livro nas mochilas antes que sofresse qualquer tipo de coisa que o deixasse ilegível. Fiz de tudo para que me soltasse, gritei, bati os pés, bati em suas costas, enquanto ouvia os outros dando força para ele.
Ele me tomou em seus braços, e se jogou junto comigo na água, e todos riam, batendo na água feito crianças que fazem birra, eu segurando o riso e um pouco enfurecida joguei água nele foi quando também percebi que estava rindo de tudo.
Naquele momento, cheguei a lembrar de como era em São Paulo, eu mal saia e mal ria, quando pude notar, olhei para o lado de onde estava a mulher da noite passada, e lá estava em pé com uma criança pequena ao seu lado, como se nada naquela noite tivesse acontecido. Vê que estava bem trouxe alegria para dentro de mim depois de tudo o que eu passei naquela noite.
Fui surpreendida com uma onde de água, que fez com que eu voltasse a aquele momento que eu nunca tivera.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Ursão: O Amor da Minha vida e minha MAIOR inspiração.


Ursão ( Victor Lucas, aquele que acredita em mim):
Hora de começo: 00:00.
Hora de encerramento: 01:01
Amor da minha vida, eu sei que você deve estar magoado pensando que eu tinha esquecido do seu aniversário (21.08)... Não, eu não esqueci. Mas eu sei que vai ser dificil te convencer disso.
Passei um tempo preparando o que eu queria e veio essa gripe pra me atrapalhar e me impedir de sair de casa. Não importa, eu vou terminar. Acha que depois de todo esse tempo, fazendo o que eu estou fazendo, (que você ainda não vai saber) pra no final esquecer?
Eu queria poder aparecer na sua porta no dia 22.08 e te dá o meu presente... Mas esta um pouco dificil de acontecer devido a distância que nos encontramos.
Sua irmã ficou chateada comigo. Tudo bem, eu entendo ela. Se fosse com o meu irmão eu acho... Na verdade eu não ficaria chateada porque ele é um idiota comigo xD
Eu tenho motivos pra não ter falado nada justamente no dia do seu aniversário. Mas eu só vou dizer no dia 31.08 ( e não precisa, e nem quero que você me lembre) o dia que seu presente vai ta pronto :D e o tempo que vou ter pra Pucca me ajudar porque eu preciso da ajuda dela xD
Calma meu amor... o tempo voa quando nos esquecemos dele.
Não, eu não vou te dá feliz aniversário. Nem falar " Parabéns amor"
E quem é mesmo que gosta de ficar velho? Eu devia dizer ao invés de "parabéns"."Meus pesames por esta mais velho"

Eu não tenho cartas de tarô, mas vou dizer o que vai acontecer e o que já aconteceu: Você vai sofrer, vai crescer, vai ficar feliz, e vai ficar triste, vai sentir nojo de si mesmo e vai sentir dos outros, vai perder e vai vencer, vai perder cabelo da cabeça e ganhar cabelo nas pernas, vai sentir raiva, e vai se sentir alegre.
E isso... É o que eu desejo pra você daqui pra frente, no seu Desaniversário.

Eu apenas vou dizer o quanto eu te amo. Isso se eu for capaz de descrever o meu amor por você. Garanto que você não vai lê coisas que você esta costumado a ler. Nem o "Eu te amo" no final vai ter. Eu não consegui inventar (ainda) a palavra, que possa substituir essa, que caiba nela todo o sentimento que esta guardado dentro de mim sem antes mesmo te conhecer.
Porque... Sabia que desde que eu nasci, eu estou te esperando?
Você demorou... E eu devia te odiar por me fazer esperar tanto! Mas é! Eu te odeio! E quanto mais eu te odeio mais eu te amo! Droga!
Vai entender isso de uma pessoa com a cabeça doida que nem a minha... Acho que só a Dani.
Sabe, não sei porque tantas pessoas reclamam da dor que sentem por amor. Acho que não tem o que reclamar, e sim agradecer por descobrir que amou, que ama.
E os infelizes são aqueles que ainda não conseguiram sentir e descobrir.
Mas uma pergunta...
Quando é que realmente sabe que ama alguém?
Não é quando você esta perto dele(a) você sente um friozinho na barriga ou você sente cada vez mais vontade de estar perto dele(a)?
A gente sabe que ama alguém quando a gente simplesmente... Nada...
Agente apenas sabe. Agente apenas consegue sentir, mas não descrever em palavras o que é sentir algo diferente e interrado a sua cabeça e no seu coração.
Meus minutos estão acabando... E eu ainda estou tentando pensar na palavra proxima, que descreva tudo o que eu sinto por você...
É... Acho que encontrei...


...

...

...


Eu... Paralelepipedo você...
HAHA Eu não garanti que iria ser uma palavra bonita e romantica, que por sinal, eu não sou. Né Ursão?

Eu não vou te avisar que tem algo te esperando aqui no meu blog, quando chegar a hora você verá.
E eu tenho apenas mais um minuto...
E o que eu vou falar?

Paralelepipedo Ursão...


( e essa hora ai embaixo foi a hora que eu abri o troço ok?)

domingo, 9 de agosto de 2009

A Morte - Parte 4



O medico que estava cuidando de mim disse que eu teria de ficar em observação.
Apenas um dia – Ele disse.
Em um dia eu já estaria das cabeças aos pés só mofo naquela cama! Já podia sentir as pequenas aranhas transparentes subindo por minha barriga. Dizer que eu estava bem, que aquilo era desnecessário, que não precisava daquilo, foi o mesmo que nada.
No mesmo dia, depois de mofa a manhã inteira. Acabei recebendo uma inesperada visita de um policial, minha mãe quis evitar que ele me visse, acho que pelo fato de ele ser um grandalhão robusto com uma voz grave que a assustava, mas garanti que iria ficar bem. Depois de ser atacada e quase violentada – se não fosse pelo garoto do avião – iria encarar um grandalhão daqueles como se fosse apenas uma criança perguntando se eu havia encontrado seu bonequinho perdido.
O policial que entrou no meu quarto foi bastante gentil, pelo visto seu jeito “grosseiro” e “valentão” estava apenas em sua aparência, dissera pra mim que eu poderia chamá-lo de S., vieram alguns nomes possíveis na minha cabeça, e sinceramente nenhum agradável, devia ser por isso que não gostava que o chamassem pelo nome todo.
S. sentou em uma cadeira que havia no canto da sala branca e começou a me interrogar. Toda vez antes de começar uma nova pergunta, fazia uma pausa, me olhava bem nos olhos e espremia os lábios fazendo um bico e balançava a cabeça devagar assentindo a todas as minhas respostas. Pelo o que ele contou. O “tal bandido” já era conhecido, seu nome: Carlos Mondraque.
Já era fichado por violentação e assassinato apenas a mulheres.
- Seu amigo botou mesmo o cara pra comer grama – Falou ele rindo da própria piada que acabara de fazer - Havia algumas gotas de sangue no lugar, mas pela a análise dos policias, não era o seu sangue. Pensamos que talvez fosse do seu amigo, mas ele estava perfeitamente sem nenhum arranhão.
Ele não era meu amigo, mas não fiz questão de mencionar isso.
Fiquei surpresa.
Não era meu? Eu me lembro perfeitamente que eu estava sangrando muito, lembro-me de sangrar parece um chafariz. Como o sangue não poderia ser meu?
S. pareceu perceber minha surpresa por isso continuou:
- Interrogamos seu amigo e como já disse ele botou o bandido pra comer grama e deve ter dado uns bons bofetes nele, o que deve ter resultado nas gotas de sangue que encontramos. Infelizmente, o bandido conseguiu escapar, mas como eu já disse pra sua mãe: não tem com o que se preocupar a policia já esta fazendo a ronda, a procura de Carlos.
S. colocou no meu colo uma foto, se eu o julgasse pela aparência, não diria nem acreditaria se viessem me falando que ele era um assassino com um coração de pedra.
Seus olhos eram passivos bem puxadinhos, em sua boca um sorriso escondido nos cantos, não tinha muito cabelo, apenas poucos fios acinzentados, na sua sobrancelha esquerda a marca de uma cicatriz, era gordinho e me lembrava a um cara que eu vi no filme “O amor é cego” com Jack Black, que o nome no momento não conseguia recordar.
Suas vitimas jovens e belas, de 17 á 18 anos de idade. Cheguei a me senti por um lado lisonjeada, era bom saber – por um assassino – que eu era bonitinha.
Quando a sessão de perguntas acabou, S. me deu o número do seu celular e disse que qualquer coisa era pra ligar pra ele.
Na hora que se retirou, lembrei do meu “amigo”, me olhando, seu olhar sedutor, os olhos verdes estreitos. O garoto do avião, com o mesmo verde, mas não com o mesmo olhar. Fuzilando-me com eles, sua imagem do avião me dava arrepios.
Sorte eu ter um amigo desses pra me salvar quando estiver em perigo, ainda mais aparecendo do nada enquanto a rua estava completamente deserta, eu sabia, e lembrava claramente de não haver ninguém, nem a longe e não daria tempo de ele estar o mais longe dali e chegar a onde eu e o meu caro assassino estávamos. Não a tempo.
Refleti até perceber que meu instinto e meu entusiasmo de mistério começavam a apitar.
No inicio da noite, Will, Fernando e Yuka vieram me visitar. Fernando trazendo uma rosa branca e Yuka uma caixa de chocolates.
Os dois se desculparam muitas vezes por terem me deixado sozinha, principalmente Yuka ainda mais depois que receberam uma conversação com minha mãe, o que eu achei irritante e péssimo já que a culpa não tinha sido deles, ninguém conseguiria prevê que um doido estaria esperando por mim em um beco escuro.
- Me desculpa de novo, Anne. – Desculpou-se Yuka novamente segurando minha mão, com o canto dos lábios pra baixo e o olhar triste e preocupado.
- Eu já disse que ta tudo bem, eu me distrair e devia ter ido atrás de vocês ao invés de ficar no mundo da lua.
- Não está tudo bem! – Interveio Fernando. – Eu vou achar esse cara e pegar ele pra você! Eu juro!
- Fernando, cala a boca que você não pega nem o mosquito que morde a sua bunda. – Retrucou Yuka.
Começamos a rir até a enfermeira que veio checar se estava tudo em sua perfeita ordem, claro menos Fernando que durante o restante da visita, ficou de cara fechada para todo mundo inclusive a enfermeira que ele chegou a chamar de jalecuda enxerida

Ele não voltou. Durante toda a noite que se seguiu, eu não consegui dormir, às vezes eu apenas fechava os olhos, dizendo para esquecer e tentar pensar no amanhã ou simplesmente no meu sono. Mas como esquecer?
Eu sabia que se eu não dormisse naquele instante amanheceria igual a uma bruxa, mas não conseguia mante-los nem 10 segundos fechados e relaxados, sentia que estava sendo observada, não me senti em perigo, eu estava em um hospital, minha mãe e minha tia estavam lá fora, eu estava no 3° andar, não havia como alguém estar me observando ou escondido em algum lugar do lado de fora, de vez em quando sentia ate uns arrepios, não de medo, mas de alguma coisa que eu ainda não sabia, mas queria descobrir assim que saísse daquela cama.
Não conseguia daquele jeito, levantei e permaneci sentada ate senti que conseguia levantar, tanto tempo deitada acabou me deixando meio lerda. Quando comecei a andar, eu ia da janela ate a cama, era uma distancia curta, mas o motivo de eu ter me levantado não era para dar um passeio legal por aquele quarto branco e pequeno.
Chegando perto da janela, eu ficava olhando pra fora: o estacionamento e a rua escura iluminada apenas por um lampião antigo.
As coisas estavam acontecendo tão rápido que eu mal parara pra pensar em tudo o que acontecia ao meu redor. Talvez fosse apenas meu instinto aventureiro. Agora eu sabia, não conseguia ter certeza de nada!
Eu estava enganada, eu estava pior que uma bruxa, a comparação mais adequada em relação ao meu estado naquela manhã era com o monstro do pântano.
Quem nos levou para casa foi Will em seu carro que acabara de sair do mecânico, um Palio prateado. Havia pouco tempo que havia tirado sua carteira de motorista, mas até antes disso ele não se preocupava em dirigir sem ela. O caminho foi curto, meu primo em todo o percurso chegou a se desculpar inúmeras vezes por não cuidar direito de mim – Como se eu precisasse de uma babá – isso depois de levar uma bronca da minha mãe e minha tia, tentei abrir a boca pra fazer uma objeção aquilo tudo, mas minha mãe foi mais rápida.
- Não fale nenhuma palavra se quer Dona Molly Anne. Se abrir a boca ficara de castigo por uma semana. – Ameaçou.
Minha mãe nunca se dirigia a mim pelo nome todo a menos que fosse realmente sério. Achava meu nome ridículo e fora do comum, não que coisas diferentes fossem ruins, mas Molly Anne? De que desenho animado da TV ela tirou esse nome horrendo? Ficar de castigo não era a pior coisa, não pra mim, falar meu nome em voz alta. Talvez. Por isso me pus a abrir a boca novamente, mas antes de sair qualquer som da minha voz olhei para o retrovisor e vi Will balançar a cabeça como negativo.
Bufei violentamente.
Você que manda. – Pensei inconformada.
E durante toda a viagem se permaneceu em silêncio.

Já haviam se passado algumas semanas desde meu lamentável acidente com o homem de preto e pela primeira vez desde que cheguei a esse lugar desconhecido, via a luz do sol, mal havia parado pra pensar nela e o quanto já estava com saudades, agora eu já a amava, e a desejava, quando a luz tocou meu rosto consegui sentir uma “liberdade”, uma liberdade de poder finalmente respirar porque tudo estava me sufocando de um jeito que nem eu mesma sabia como eu ainda estava com o coração batendo dentro do meu peito.
Tudo isso estava me transformando, e eu não sabia se era pra bom ou pra ruim, mas de qualquer maneira, não queria mudanças, queria minha vida de volta.
Desde que sai de São Paulo, vivo com um pressentimento que tudo vai mudar, não apenas a minha vida, mas como eu também, minha irmã, minha mãe, tudo.
Eu estava sentada no galho grosso na varanda do meu quarto, relendo outra vez Orgulho e Preconceito, mas a verdade é que eu lia as palavras sem ao menos entendê-las, ele ainda não tinha saído dos meus pensamentos.
- Você é muito corajosa em subir ai. – Comentou Will.
- Me simpatizei com ela desde que cheguei, não tenho medo. – Falei olhando ainda para o livro.
- Perdi as contas de quantas vezes já cai dela. – Ele se aproximava passando seus dedos pelo galho subindo na grade da varanda. Logo de surpresa já estava sentado ao meu lado. – Não sei como não morri.
Olhei para ele.
Em seus lábios havia um sorriso debochado de si mesmo.
- Mesmo tendo caído dela muitas vezes ainda tem coragem de subir? – Perguntei fechando o livro.
- Não tenho medo. – Ele riu e virou seu rosto para me olhar e a luz do pôr-do-sol batia no lado direito de seu rosto fazendo o seu olho direito ficar mais claro que o outro, em um verde brilhante como se houvesse um diamante dentro dele. Pela primeira vez eu notara a cor de seus olhos, castanhos claros que mudavam para aquele verde brilhante. Senti vontade de sorrir, mas me segurei enquanto ele abria a boca para falar novamente. – Escuta, eu e alguns amigos vamos sair nesse fim de semana, se você quiser ir...
- Vamos pra onde?
- Não sei. Ainda estamos vendo, talvez em um restaurante italiano, disseram que era muito bom.
- Eu posso chamar alguns amigos? – desviei o olhar para a capa do meu livro.
- Ah claro se quiser.
Senti seus dedos grossos se enroscarem nos meus, com seu polegar já acariciando a parte de cima da minha mão, não o vi desviar o olhar com medo da minha reação, ouvia sua respiração lenta e decidida deixei minha mão ali.
Admito que senti uma atração forte quando eu o vi parado sem camisa na porta da frente nos recebendo, mas por que deixar minha mão ali me parecia tão errado?
- Eu preciso ir, marquei de sair com uma amiga. – Devagar fui tirando minha mão debaixo da sua.
- Ah, Tudo bem.
Quando levantei o rosto para olhá-lo de novo, me deparei com uma imagem de um rosto que parecia tão sereno que me lembrou a um anjo. Tentei ainda mais conter meu sorriso.

Yuka chegou bem na hora marcada, ela se oferecera para me mostrar a cidade. Na verdade a parte dela que eu devia saber por onde andar, minha tia comentou que eu devia aprender a não me perder mais, ali costumava ser bastante perigoso, por isso minha mãe insistiu que eu devesse pedir para uma amiga me ensinar os caminhos.
Yuka me contara que não era a primeira vez dela ali, que sempre vinha visitar o pai na época de julho e com o tempo aprendeu a andar por essa cidade estranha, ela parecia apreciar tanto Belém que devia ter contados os dias quando a mãe decidiu mandá-la para os cuidados do pai.
Usava um vestido vermelho vivo ate os joelhos bem rodado, com um cinto preso na cintura fina com uma flor enorme no meio, ela realmente gostava de cores e roupas que chamassem a atenção das pessoas para uma coisa diferente, contou que ela mesma fazia as próprias roupas que se eu pedisse pra ela, teria o maior prazer de fazer um vestido igual ao que estava usando. Talvez em um futuro distante eu ficasse bem numa roupa daquelas e quando quisesse chamar a atenção das pessoas não pensaria nem duas vezes em que pessoa procurar para me dá dicas.
- Quem é essa tal Vivian mesmo? – Perguntou ela amarrotando a cara.
- É uma aeromoça que estava no nosso vôo.
- Ela é “muito gata” mesmo? – Perguntou, usando as mesmas palavras que Fernando usou para descrevê-la
- É bastante. – Disso eu não tinha duvidas.
- Me responde uma coisa?
Olhei para ela.
- Você me acha bonita?
Essa pergunta obviamente me pegou de surpresa, mas claro que eu sabia e entendia o que se passava dentro dela, nos sentimentos relacionados ao Fernando.
- Acho. – Tentei responder com entusiasmo.
Yuka de um modo diferente era muito bonita, mas queria que ela sentisse isso sem ligar para minha voz seca e morta.
- Você acha que eu chamaria atenção de algum homem?
- Claro que sim.
Ela parou de andar.
- Anne como você consegue?
- Consigo o que? – Parei para olhá-la
- Ficar tão calma. – Ela arregalou os olhos, tentando mostrar o tamanho da gravidade da situação, enquanto esfregava uma mão na outra entrelaçando os próprios dedos uns nos outros.
- Se você gosta do Fernando, porque não fala de uma vez pra ele, ao invés de deixá-lo sair com outras garotas?
Ela abaixou a cabeça.
- Dá pra notar tanto assim que gosto dele?
- Sim e muito! – E isso não era exagero da minha parte.
- Eu sou uma idiota, nem mesmo consigo contar pra ele.
- Você só não encontrou o momento certo para isso... Você quer sair comigo esse fim de semana?
- Pra onde?
- Eu não sei, Will disse que poderia ser um restaurante que acabou de abrir, você e o Fernando querem vir conosco?
- Ah, Tudo bem, eu falo com ele, posso levar uma amiga? – Deu um largo sorriso.
- Claro, acho que quanto mais gente melhor.
Tentei sorri. Um sorriso torto e sem vida. E ela retribuiu com apenas com um riso pela minha tentativa.

Estava eu, Will, dois amigos dele chamados Pedro e Gabriel eu os via no intervalo sempre juntos e no primeiro dia de aula me lembro que os dois estavam do lado do meu primo no canto da sala me olhando como se eu fosse algum móvel novo que havia acabado de chegar pra enfeitar a escola, Yuka, Fernando e uma amiga de Yuka chamada Daniela, ela era da mesma sala que nós, mas se mantinha distante por algum motivo, talvez Yuka a tenha convidado pra ela se enturmar e parar de ser tão quietinha, como eu – Pelo o que Yuka comentou.
Estávamos todos no restaurante Italiano, chamado Spoleto que Will havia me falado. Não me lembrava à última vez que eu havia saído com os amigos, talvez na quinta ou sexta série. Não era algo que me fez falta depois, mas era algo que no momento eu estava apreciando.
O garoto alto de cabelos curtos e loiros, Gabriel, contava a engraçada história de como deram uma cuecada no professor de história, que não parecia ser o preferido de todo mundo, mas era o professor da matéria que eu mais gostava. Concluindo a história foram suspensos durante três dias. O mais escandaloso nas risadas era Pedro. Moreno de olhos azuis e cabelos negros cheios de tranças até os ombros, Will ao mesmo tempo em que parecia se divertir sentia-se um pouco envergonhado pelo o escândalo dos amigos. Gabriel deu uma cotovelada em seu braço que o fez olhar com um olhar bem sério para os dois amigos. Que logo contiveram o riso, mas que cochicharam alguma coisa no ouvido um do outro. Yuka é a que parecia estar mais se enturmando no meio de todas aquelas risadas altas e garotos brincalhões. De vez, ela parava e ficava olhando Fernando discretamente, mexia nos cabelos curtos e suspirava. Daniela no começo ficou mais calada que eu, mas logo entrou no assunto quando percebeu que Gabriel a ficava secando. Seu rosto branco cheio de sardinhas ficava vermelho com facilidade quando ficava com vergonha e foi isso que a denunciou.
Todo o tempo lá, eu olhava para Yuka e Fernando e rindo para mim mesma, acabou que ela não conseguiu dizer ao menos nem uma palavra.
A lembrança do acidente veio tão de repente, que meu riso se silenciou. Depois dele, nunca mais voltei a ter aqueles sonhos, o que era de grande alivio, mas porque continuar a pensar nele? Por que essa lembrança inesperada logo naquele momento de risos e divertimento? Tratei logo de voltar meus pensamentos ao restaurante e a conversa e não pensar mais naquilo.

*****


Ao chegar a casa, vi que não tinha nenhuma luz ligada.
- Mãe? Tia? – Chamei mais ninguém respondeu.
Foi então que lembrei que minha tia havia dito no almoço que iria ter um jantar com uns velhos amigos e que Sophie iria junto com minha mãe pra lá. Isso com certeza iriam distrair a noite toda e Will decidiu que iria ficar com os amigos dele e que talvez até passasse a noite fora. É. Sozinha pela primeira vez. Não me restava muito que fazer. Estava apenas eu em uma casa gigantesca, com vários quartos vazios, uma biblioteca enorme e uma sala de TV.
Subi para meu quarto, decidida a tomar um banho muito demorado e relaxar.
Peguei uma blusa gigantesca que tinha amarrotado na pilha de roupa do meu armário e uma calça de um pijama que eu não usava há um ano.
Cheguei à luxuosa sala, mas não havia nenhuma TV lá.
Procurei mais só havia os controles. Peguei o mais largo e gordo, apertei em todos os botões distraidamente e me assustei dando um pulo quando vi a estante em minha frente se abrir e encontrar lá a TV escondida por trás.
- Tenho que aprender a me acostumar com casa de rico e essas frescurites... – Deduzi.
Ao apertar no botão vermelho, logo foi ligada em um canal de noticiário da região.
Antes de ter tempo de mudar, ouvir um nome conhecido sendo citado no jornal:
Vivian. Uma foto sua com mais três garotas que eu não conhecia, sendo ela o destaque.

“O corpo da jovem Vivian, de 29 anos, que havia desaparecido na semana passada, acabou de ser encontrado por policiais da região. Havia marcas de arranhões e cortes profundos em seu corpo e pelo o que os médicos nos disseram, várias mordidas na parte do pescoço, braço e pulso. O corpo foi achado sem sangue. Ainda não há sinal de quem possa ter feito esse massacre. Policiais informaram que pode ser obra de algum tipo animal que devia vagar pela região...”

Uma imagem sua foi postada depois de morta. Ao vê-la, meu coração quase pulou, senti meu corpo tremer ao vê-la vestida com o mesmo vestido preto do meu pesadelo, rasgado, a palidez, tudo, sem desligar a televisão, subi correndo até meu quarto, não sabendo o que pensar.
- Com... Como eu poderia ter sonhado com sua morte? – Perguntei a mim mesma, colocando a mão na cabeça.
As lágrimas pulavam dos meus olhos, uma seguida da outra.
“Por quê?”
“Era apenas um sonho” – Dizia a mim mesma por pensamento. – “Não é real!”
Fechando bem os olhos, querendo acordar para a realidade não queria mais estar naquele pesadelo.
Minha atenção foi para um ruído vindo das árvores, olhei, mas nada vi apenas o sinal da noite.
- Eu não tenho medo. – Murmurei para mim mesma, fechando minhas mãos em um punho mandando meu corpo parar de tremer.
Caminhei ate a varanda lentamente, olhando diretamente para a árvore, subi em cima do galho com a mesma facilidade de que a primeira vez vendo se conseguiria ver direito. Entre os diversos galhos e folhas, fui me arredando mais para perto. Senti meu corpo tremer novamente, minha respiração ficou tensa ao conseguir enxergar a sombra de alguém entre as folhas verdes, antes de sair qualquer som da minha boca acabei perdendo o equilíbrio de meu corpo, senti meu estomago se embrulhar, e uma forte pressão do ar, meus cabelos cacheados dançando no vento. Eu estava com medo, um medo profundo do que aconteceria agora. Um medo que eu dissera pra mim mesma que não teria.
Foi então que sentindo tudo isso de uma só vez. Senti um toque de alguém, eu estava de olhos fechados, me perguntando se já estava no céu ou no inferno... Até finalmente criar coragem para abri-los, e vê que estava viva.
Respirei fundo.
A primeira coisa que vi foi uma imagem de um Deus ao meu lado. Olhando-me com olhos preocupados, seus olhos estavam mais verdes do que castanhos, estavam brilhante, não como o de Will naquele fim da tarde, mas um brilho que eu não sabia distinguir de onde viera.
Com um pouco do cabelo caindo em seu rosto, sua pele pálida e seus lábios vermelhos, com a expressão do rosto tensa e aflita. Eu conhecia aquele rosto.
- Victor? – Consegui dizer, seu rosto estava bem perto do meu e conseguia senti sua respiração fria e descontrolada.
- Anne, você está bem? – Sua voz foi como musica em meus ouvidos, algo nela me fez ficar tão calma como se nada de assustador tivesse acontecido.
- O que você está fazendo aqui? – Perguntei surpresa.
- Me responda, por favor!
- Sim. Eu estou bem, só com um pouco... Nervosa. – Sentia imensa dificuldade em pronunciar aquela palavra.
- Não se preocupe, prometo que vai ficar tudo bem – Ele passava a mão nos meus cachos. Tentando me tranqüilizar, pude ver que ainda usava sua luva de couro preto, mas não quis perguntar ou reclamar de nada.
Então pude ver que estava deitada na grama do lado de fora da casa, levantei o olhar e conseguia ver o céu azul escuro cheio de estrelas, nunca conseguiria ver elas em São Paulo...
Ele rapidamente me carregou, passando uma de suas mãos por baixo as minhas pernas e a outra na minha cintura e me levou para dentro. Eu me considerava uma gorda, mas ele me carregava como se tivesse segurando uma formiga comum. Colocou-me delicadamente deitada no sofá. Mas logo tratei de me sentar.
- Fique aqui. Eu vou chamar um medico. – Ele foi em direção a porta de saída.
- Mas eu estou bem. – Insistir.
- Não se preocupe, eu volto.
Antes que pudesse abrir a porta, me pus em sua frente, olhando nos seus olhos, agora mais claros que antes, sua expressão mudou para séria.
Eu não pretendo recuar por causa de uma cara feia. – Pensei.
Nos seus trajes nada tinha mudado, mais preto, e com as luvas.
Meu olhar para ele era sério também. Franzi as sobrancelhas e o fitei.
- Quem é você? – Eu queria respostas e ele as tinha de cor e salteado.
- Alguém que se importa com você! Isso já não basta?
- Não. Por quê?
Meu coração estava mais acelerado do que qualquer outra vez que ele tenha ficado e eu me perguntava:
“Por quê?”
Tinha a estranha impressão que todo o meu corpo se tremia mais que antes.
- Você nem me conhece... – Disse ele me dando as costas, parecendo perder a paciência.
- E você me conhece?
- Mais do que pensa. – Me olhou sobre o ombro.
- Como?
- O que? – Ele se virou de frente pra mim, tentando me deixar confusa.
- Como você me conhece?
- Eu não conheço.
- Mas você acabou de dizer...
- Acho que você deve ter batido a cabeça quando caiu da árvore. – Ele me interrompeu.
Eu tinha absoluta certeza de que tinha o ouvido falar que me conhecia mais do que eu pensava. Mas com a notícia da Vivian morta e ele aparecendo do nada, estava tão confusa que acabei me rendendo aquele jogo de perguntas.
- Acho que deve ter sido isso mesmo.
Senti-me zangada por me deixar ser vencida tão facilmente.
- Eu vou busca um copo de água para você.
Ele sorriu de leve pra mim. Indo direto para a cozinha, eu ainda confusa, fui atrás dele.
Ele já estava com o copo na mão, quando me viu se aproximar. O vi revirar os olhos e pousar o copo na pia. Como se já soubesse o que viria pela frente.
- De onde você veio?
- Eu estava andando por aqui por perto, e vi você no chão.
- Eu não me lembro de nada disso...
- Talvez, porque você devia está inconsciente.
- Eu acho que não estava inconsciente. E se eu realmente cai de cima de uma árvore tão alta por que não estou com nenhum arranhão?
- Sorte.
- Por que não conta logo a verdade?
- E qual é a verdade? – Falou ele levantando um pouco o tom de voz, se aproximando mais de mim.
- Que você me segurou para que eu não caísse no chão!
- E você tem como provar?
- Não!
Ele riu.
- Então não tem mais porque discutir esse assunto sem finalidade.
- Porque você esta fazendo isso?
Ele bufou.
- Você é teimosa, eu já disse que você estava consciente, eu vi você.
- E como você entrou aqui?
- Você estava com as chaves da porta da frente no seu bolso.
- Não estava eu as deixei na minha mesa no meu quarto assim que eu... – Não queria continuar aquela discussão, ele podia ser bonito como um Deus que eu nunca mais encontraria em toda minha vida, mas era irritante, o bastante pra me tirar do sério.
- O que? – Perguntou parecendo curioso.
- Nada. – respondi mal humorada
Comecei a marchar direto para meu quarto e vi por sobre o ombro que ele vinha logo atrás de mim, em toda a trajetória viemos em silêncio. Chegando lá me posicionei ao lado da mesa, mas não havia nenhuma chave. Fiquei de boca aberta. Como... – Balancei a cabeça tentando expulsar todas aquelas idéias confusas.
- Eu tenho certeza que tinha deixado elas aqui!
- Mas parece que não.
- Certo. Você venceu... – Falei olhando pela varanda.
Ele sorriu triunfante.
Não agüentaria olhar para aquele sorriso, o sorriso da vitória que eu queria que estivesse pregado em meu rosto ao invés do dele.
- Por enquanto. – Lancei um olhar desafiador para ele que pareceu ignorar.
- Eu acho melhor eu ir, sua tia e seu primo já devem está voltando, e garanto que não vão gostar nem um pouco de me ver por aqui.
- Por quê?
- Coisas de família.
Preferi não manifestar nenhuma pergunta. Duas derrotas no mesmo dia eram de mais pra mim.
Tudo aquilo ainda parecia muito estranho, tudo tão rápido, tão... Acho que nem eu tinha palavras para descrever o que eu sentia. Parecia que tudo ao meu redor rodava.
Eu o acompanhei ate a porta e a luz da lua bateu em sua pele, não tinha visto nada igual era tão... Lindo. Como se ele e a lua fossem a combinação perfeita. Era como de algum modo ele fizesse parte dela. Sua metade. Uma combinação extraordinária. Era a melhor palavra pra definir para o que meus olhos viam.
Em uma coisa eu estava certa, em toda minha vida não encontraria nada igual.

Não tinha se passado nem 5 minutos que ele havia ido embora e minha tia passou pela porta desesperada, entrou na sala fazendo varias perguntas, algumas estranhas, como se estivesse aqui o tempo todo.
- Anne você esta bem? Alguém veio pra cá com você? – Questionou ela parecendo pálida, como se tivesse visto um fantasma.
- Eu estou ótima. Não tia, por quê?
- Não havia ninguém aqui? Anne não quero que traga garotos pra cá sem meu consentimento, me entendeu? – Ela apontada o dedo em minha direção.
- Sim... Tia está tudo bem?
Minha mãe e Sophie atrás delas ficaram nos olhando, principalmente me olhando sem entender.
- Sim, sim. Foi só uma impressão minha. Pensei que tivesse trazido um rapaz pra cá – Terminou com “uma boa noite”, mas ao sair pude ver seu rosto, estava coberta desconfiança, minha mãe foi atrás dela, com certeza para perguntar o que teria sido aquilo.
Sophie ficou me olhando e aos sussurros perguntou:
- O que aconteceu?
E meus lábios se movimentaram em resposta:
- Não faço a mínima idéia.
Estava tão distraída que nem me deixei importar com aquilo por muito tempo.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Vida Nova - Parte 3


Não tinha a certeza se era o mesmo lugar de antes. As árvores não estavam lá, nem o balanço, á lua, apenas a visão da escuridão ao meu caminho. Eu estava sem nenhum sinal. Se pelo menos alguma coisa... Uma simples coisa concreta aparecesse...
No mesmo instante olhei para minha frente e uma linha pequena e fina de luz formava um caminho. A fina linha não era reta, era como se eu tivesse caído em um buraco fundo e a fina linha cheia de curvas e defeitos fosse às pedras da superfície. Levantei o rosto, mas não tinha nenhuma brecha de onde aquele pedaço de claridade viria. Caminhei em sua direção, sem saber para onde ela me levaria.
Por que eu voltaria pra escuridão? Por que escuridão? – Era o que eu me perguntava. Que sentindo teria isso...
Por uma fração de segundos temi que ela me levasse aquele par de olhos vermelhos, me lembrei como eles pareciam tão frios e tão cheios de dor. Lembrar disso apenas também fez surgir um interesse e curiosidade que não pude conter. Durante longo tempo continuei a caminhar, tentei acelerar o passo, foi então que avistei alguma coisa ou talvez alguém. Estava muito longe pra eu conseguir identificar.
Sim, era uma pessoa, uma mulher, bastante familiar, loira de longos cabelos caídos até o meio de suas costas, era bastante bran
ca, de longe dava a impressão que sua pele era de porcelana, seu batom vermelho rubi cobria todo o lábio. Era mais alta que eu, estava com um vestido bonito, curto de cor preta, colado em seu corpo perfeito. A cada vez que me aproximava, ela se afastava. Parecia apavorada, me olhava como se eu fosse algum tipo de mostro que desejava matá-la. Eu sabia que era feia, mas não pra tanto...
“Quem é você?” – Perguntei. Mas nenhum som se ouviu.
Suspirei fundo. A mesma coisa que da outra vez.
Conseguindo me aproximar mais dela, vi que realmente a reconhecia.
“Vivian? O que você está fazendo aqui?” – Voltei a perguntar, mas nenhum som saia da minha boca.
Isso só serviu pra me incomodar ainda mais.
Sua expressão havia mudado, agora era para o extremo horror, ela começou a correr. Corri atrás dela, tentando acompanhá-la, me perguntando o que estava acontecendo. Sabia que não adiantaria nada gritar, porque eu literalmente tinha me tornado uma muda. Ela corria desesperada, como se estivesse fugindo de alguma coisa, que no caso era eu, mas não conseguia entender. Eu a vi caindo no chão, com os pés descalços cheios de cortes ensangüent
ados, seu vestido preto tinha se rasgado na sua cintura, onde tinha um corte mais profundo. Onde poderia ter feito esses cortes se não tinha nada ali que a pudesse corta? – Me perguntei atordoada com a cena que estava vendo.
A alcancei estava chorando, machucada, foi à pior coisa que podia ter visto, estava tão perdida... Porque ela estava fugindo amedrontada e ferida?
EU QUERO RESPOSTAS – Gritei dentro de mim.
Quando voltei a olhá-la a escuridão a tomou conta. Ela havia sumido, olhei para os lados, andei não sei quanto tempo a sua procura, chamava seu nome – tentei – mas nenhum sinal.
Fiquei vagando pelo nada pelo o que parecia longas horas até ver alguém novamente, o que eu não esperava vê tão cedo depois de Vivian, estava no chão, era Vivian, fiquei com medo de me aproximar e ela sumir de novo, por isso fui devagar dando passos lentos. Cheguei ao lado dela, pude ver que ainda estava machucada agachei ao seu lado, sua boca estava com uma gota de sangue escorrendo pelo canto, toquei sua pele e tomei um susto, estava muito fria, coloquei meu ouvido em seu peito, seu coração estava em silencio, estava... Morta.
- ANNE! – Gritou.
Acordei assustada, suspirando forte, sentindo meu batimento na garganta como se meu coração fosse pular pela minha boca, havia fios de cabelo grudados na minha testa e no meu pescoço, os afastei e pude sentir meu suor frio.
- Anne! – Chamou Sophie, que estava ao meu lado, atrás dela Will estava em pé, com um olhar curioso, mas ao mesmo tempo preocupado. – Anne, você ta me escutando?
- Acho que devíamos levá-la pra um hospital – Sugeriu meu primo.
- Não, eu estou bem! Mas que diabo... O que aconteceu?
- Você que devia nos explicar...
- Estava que nem louca aqui gritando. – Interrompeu Sophie, não o deixando terminar a frase. – Chamando uma tal de “Vivian”.
Fez-se um silêncio.
- Anne, quem é Vivian? – Perguntou.
- Não faço a mínima idéia. – Menti. – Era apenas um pesadelo idiota, não precisam se preocupar.
Os dois se entre olharam por alguns minutos, e deram ombros, meu primo se foi sem questionar mais nada, mas Sophie ainda chegou a insistir que tinha alguma coisa acontecendo que eu não queria que ninguém soubesse.
Não havia nada acontecendo, se tivesse claro que contaria pra ela, o que afinal eu não contava? Era certamente um sonho, ou melhor, “pesadelo” idiota que deu pra me atormentar um pouco. Pesadelos diferentes que não tinha nada haver um com o outro, não se encaixava. E tinha a pura certeza que não voltariam mais.

Primeiro dia, nova escola, novos rostos que eu devia me acostumar, nova vida... Era isso que eu teria que enfrentar daqui em diante. Não sabia ao certo se estava mesmo pronta pra encarar a escola, pensei em inventar qualquer desculpar para não aparecer, com tudo, minha mãe sempre desconfiada – especialmente e
m relação a mim – não conseguiria a convencer, saberia sem duvidas meu plano. Ainda me questionava o que eu teria feito de tão grave para não receber sua confiança, ou talvez também não chegasse a ser isso... Esse assunto só servia para me irritar ainda mais. Não era justo.
Como a escola era perto da casa de Silvia, a dois quarteirões, íamos andando. Sophie e Will já estavam lá fora impacientes esperando por mim. Por conta do meu sonho ou pesadelo, tanto faz, era difícil distinguir o suspense e o mistério que me agradavam da morte de Vivian que no caso teriam me deixado ligeiramente assustada e com um pavor o qual eu não conseguia descrever, tudo acabou me atrasando completamente para o meu primeiro dia. Peguei a primeira roupa que vi pela frente, – que no caso era uma blusa sem mangas branca e uma calça jeans velha, meu tênis all star, o mais velho que tenho, mas o único que acho confortável, ele tinha um buraco enorme dentro dele, mas que ninguém conseguiria perceber a menos que o calçasse – sai correndo vendo se ia conseguir alcançá-los, já que a paciência dos dois havia se esgotado há 15 minutos depois, por isso tive que sair sem tomar café, às pressas, o tempo também não estava ao meu favor, estava cinzento, como se fosse chover.
As aulas já haviam começado há uma semana. Enquanto Sophie ia para o ultimo ano do ensino médio, eu ainda estava no segundo. Eu e Will ficaríamos na mesma sala, era pra ele estar no ultimo ano com Sophie, mas acabou perdendo o ano devido ao fato dos problemas entre a mãe e o pai. O conflito e o sofrimento acabaram durando mais que o esperado, minha tia perdida não conseguia se manter forte. Pelo menos, alguém conhecido eu teria por perto.

A escola era extremamente grande, maior que minha antiga em São Paulo, pelo o que Will havia contado no caminho, – eu consegui alcançá-los depois de abusar das minhas pernas – ela teria no máximo cinco andares, o nosso era o 2° enquanto o de Sophie era o de cima, Will conhecia de tudo naquela escola, pois estudava lá desde pequeno, por isso se ofereceu para acompanhar Sophie até sua sala, pelo o que comentou o andar a cima do nosso era um labirinto.
A porteira que estava lá a me ver apenas me olhou desconfiada, sem ao menos olhar para ela, passei direto, percebi que ia chamar minha atenção para alguma coisa, pra naturalmente me apreender por não ir com minha cara, acabou se distraindo com o garoto atrás de mim usando um boné da Nike preto, suspirei fundo, e soltei o ar devagar, de pleno alivio. Pelas as instruções que Will tinha me passado, eu teria que achar uma placa com o nome de “Secretaria”, ao lado dela encontraria uma porta branca que me levaria diretamente a uma moça de cabelos curtos negros, que se chamasse Nicolle, ela teria as copias dos horários, e me daria documentos que eu teria que assinar. É não parecia uma missão tão difícil assim, eu conseguia fazer isso.
Mordisquei minha gengiva, procurando, nervosa e ao mesmo tempo agitada pela placa, pelas tantas salas que passei, nenhuma era a da descrição. Quando meu relógio marcou 07h30min em ponto o alarme tocou, tive que botar as mãos em meus ouvidos que pareciam que iam explodir de tão alto que aquilo gritava.
Todos que me rondavam, agora se dirigindo a suas devidas salas. Ignorei meus tímpanos que pareciam doloridos, fazendo um estranho zumbido e continuei a dar voltas, e mais voltas por aqueles corredores. Distraída, olhando apenas para cima, procurando a tal placa mal percebi que já estava tudo de
serto, depois de algum tempo foi que olhei ao meu redor, estava sozinha no meio de tantas salas cor de prata, pensei em entrar em alguma delas para perguntar, mas percebi que estava sem coragem o suficiente para fazer tal coisa. Sozinha naquele colégio enorme com corredores que não pareciam ter fim era o que estava me deixando mais perdida, comecei estalar os próprios dedos, um por um, causando leves sons de estalos. Tão distraída foi que pressenti que alguém me seguia, olhava discretamente para trás, mas nem sinal de algum ser humano. Comecei a acelerar o passo só por precaução, mas aquela sensação só fazia se expandir no meu pensamento, já estava correndo quando dobrei a direita e acabei trombando com uma pessoa. Papeis voaram pelo ar, se espalhando por todo o chão.
- Me desculpe, eu estava distraída... – Disse envergonhada juntando os papeis.
- Ah, tudo bem, isso acontece eu também não estava olhando para frente – Disse uma voz fina e reconfortante.
Quando levantei o olhar vi uma moça de cabelos bem curtos pretos. Usando um terno bonito azul-marinho, o terno era um pouco grande para ela que tinha uma pequena cintura, era muito magra e sua pele tinha um tom amarelado, seus sapatos eram do mais fino salto, me imaginei com eles e cheguei a conclusão que eu não sobreviveria àqueles alfinetes tão traiçoeiros nem um dia se quer só se eu quisesse realmente arrumar uma desculpa pra não vir pra aula, poderia usar eles pra torcer meus tornozelo, mas meu desespero devia ser pelo menos de alto nível a chegar a esse ponto.
Não obrigada, eu estou muito feliz andando e saltitando por ai. Fazendo bom proveito dos meus tornozelos.
Entreguei os papeis.
- Obrigada. – Agradeceu por fim.
- Você é a Nicolle? – Consegui lembrar a descrição.
- Sim, você é...? – Ajeitava os papeis em sua mão com todo o cuidado, a cada papel que parecia amassado, ela passava a mão com a esperança de consertá-lo.
- Anne. A aluna nova... Me disseram que eu tinha que ir a secretaria para assinar uns documentos e pegar meu horário.
- Ah, sim, ligamos para sua mãe. Você não tinha aparecido, pensamos que já estava matando aula, logo no seu primeiro dia, jovens... – Suspirou como se todo aquele tempo estivesse prendendo a respiração – Eu entendo.
Não que eu não tenha pensado nessa hipótese.
- Eu acabei me perdendo, tive a impressão que alguém estava me seguindo.
Ela deu uma olhada atrás de mim com estranheza, procurando se havia mesmo esse alguém.
Nada.
Depois do “estou sendo perseguida!!” a mulher magra passou a me olhar como se eu fosse alguma louca que devia sair da frente dela e ir para um hospício.
Finalmente, entrei na sala que eu tanto procurava, Nicolle sentou-se com tamanha elegância atrás de um enorme balcão começou a expor vários papeis, os tais documentos que eu teria que assinar, e junto com eles meu horário. Com toda aquela confusão, o que acabei ganhando foi um castigo, teria que escrever um relatório sobre um assunto que eu devia perguntar ao meu novo professor de história.
Minha próxima aula naquele exato momento seria de biologia na sala à frente, pelo menos dessa vez não haveria como eu me perder só se o corredor me tele transportasse para outro lug
ar já que eu era a psicopata que achava que estava sendo perseguida por criaturas pequenas quase invisíveis. Quando entrei na sala, o professor já estava sentado a sua mesa, enquanto os alunos se mantiveram em um silêncio absoluto.
- Sim? – Perguntou ele me fuzilando com os olhos da cabeça aos pés.
- E... Eu sou a aluna nova. – Gaguejei.
Odiava estar na frente de tantas pessoas como estava ali, sendo a atenção de vários olhares curiosos.
- Por favor, não se acanhe, apenas... Escolha uma cadeira e se junte a nós.
Ouvia seu riso baixinho. Provavelmente estaria rindo da minha expressão já que sentia meu rosto corar ou era apenas um professor... “gentil” que se animava e ria de tudo.
Ouvi alguns dos alunos rirem bem baixinho, para que o professor não pudesse ouvir. Ele que lia o seu livro, levantou o olhar e de repente todos voltaram a ficar quietos.
Olhei por toda a sala discretamente, então encontrei Will sentado no canto da sala entre meninos bronzeados e incrivelmente bonitos, ele apontou com os olhos a única cadeira vaga que havia naquela sala, na frente dela, sentava uma menina morena de olhos puxados, parecia japonesa, de óculos grandes, de cabelos negros e super lisos desfiados nas pontas até o meio de seu pescoço, com uma blusa verde bem chamativa e uma calça preta apertada que mostrava sua magreza.
Depois de me organizar naquela minúscula cadeira, a menina japonesa a minha frente virou de frente para mim, me analisou com aqueles olhos castanhos atrás das grandes lentes de seus óculos, seus lábios finos se mantiveram fechados, apenas me olhou e voltou sua atenção para o trabalho que estava fazendo.
– Bom começo até agora – Pensei.

Depois de três aulas completamente desinteressantes, finalmente o intervalo. Talvez eu tivesse uma memória fotográfica, como alguns diziam, mas era muito fácil lembrar das coisas, até mesmo quando eu não sentia nenhum interesse. Nós tínhamos 40 minutos livres, mais do que eu teria no meu antigo colégio. Se quiséssemos poderíamos até sair dali, não que isso me animasse muito, mas um tempo para eu trocar umas idéias com Will seria ótimo, isso se ele não estivesse tão ocupado como ele estava com aqueles garotos metidos a bonitões, os via de longe sempre remexendo no topete, ou passando a mão na barriga, provavelmente pra sentir como ela estava em forma. Minha irmã, que mal havia chegado como eu, também já estava rodeada de garotas. Por um minuto me senti sufocada, precisava sair dali.
- Anne? – Chamou uma voz familiar atrás de mim.
- Fernando, você estuda aqui? – Perguntei surpresa.
Ao lado dele, a menina morena de olhos puxados, japonesa que sentava na minha me olhava.
- Sim, surpresa?
- Você nem imagina o quanto. – Fui sincera.
- Pensei em ligar para você... Como você ta? Estava de saída?
- Ah, sim...
- Já comeu? – Perguntou rápido. – Porque estamos morrendo de fome, não comi nada antes de sair da casa do meu avô, também não tem nada lá. Nós estávamos indo para o Mcdonalds, quer vim?
- Tudo bem.
- Essa é Yuka. – Agora minhas suspeitas sobre sua origem já estavam concretas.
- Yuka essa é a...
- Anne, é eu sei, é a garota esquisita que agora senta atrás de mim. – Completou a frase, sorrindo apertando minha mão.
Bom, pelo menos agora eu sei que dei uma boa impressão.
- Então garotas. Vamos logo antes que feche, e seu gatão aqui acabe ficando muito irritado com isso.

Andamos três quarteirões até chegar ao Mcdonalds, durante todo esse tempo, Yuka e Fernando falavam sem parar, e de v
ez em quando me faziam algumas perguntas simples, mas eu estava distraída, lembrando dos meus sonhos, pensando em Vivian, me fazendo mil perguntas sem respostas. Era apenas um sonho, porque não saia da minha cabeça como os outros... Havia tantos sonhos que eu tive que eu gostaria de lembrar, mas sempre ao acordar os esquecia, por que esse seria tão diferente?
Eu continuava sem fome enquanto Fernando se encharcava de batata frita, exagerando no ketchup. Parei em uns instantes nas minhas lembranças e observei Yuka que o olhava comendo com tanto carinho, e às vezes soltava um longo suspiro. Claro que não deu pra ele perceber isso porque estava ocupado demais enchendo a boca de uma forma nojenta e grosseira.
Acabou que ela reparou e pra tentar me distrair puxou um assunto: - Me disseram que você era de São Paulo. – Comentou. Dando um gole em seu milkshack de morango.
Que fez meu estomago se revirar. Morangos me causavam isso.
- Era.
Comecei a cutucar um pedaço de madeira da mesa que estava destruída pelos cupins.
Vivian... Era apenas o nome que veio rápido nos meus pensamentos.
Sonhar com uma pessoa que tinha sido gentil e atenciosa, sonhar com aquela pessoa que você tinha visto apenas uma única vez... Pelo o que lembro, Fernando parecia ter se dado bem com ela, ele poderia saber de alguma noticia.
- Eu também sou. Acabei tendo que vim morar com meu pai aqui porque minha mãe teve que viajar para o Japão.
- Pelo menos você parece está gostando.
- Estou, é bastante diferente.
Pelo menos uma de nós estava gostando.
Minha curiosidade aumentava a cada estante que se passava, batia com as unhas na mesa com a outra mão, fazendo tocar uma musica desconhecida que inventei naquele momento, até que não consegui mais agüentar.
- Você voltou a ver a Vivian? – A perguntou pulou da minha boca.
- Ah, sim, ontem. – Pego de surpresa, respondeu de boca cheia, tomando sua coca ajudando a engolir o alimento para poder falar – Minha irmã decidiu de repente que queria vim para cá, e Vivian acabou acompanhando ela durante o vôo.
- Quem é essa ai? – Seus olhos se estreitaram atrás das suas lentes.
Suspirei aliviada, ignorando a pergunta de Yuka. Isso significaria mesmo que foi um pesadelo idiota e que tudo corria tudo bem. Não que eu pensasse que acontecia alguma coisa, só q
ue era estranho demais.
- É a aeromoça mais gata que já conheci. Não que as outras que cheguei a conhecer também não fossem bonitas, apenas eram muito... – Demorou a pensar numa palavra pra descrevê-las – Murchas. – Seu sorriso era uma mistura de se achar o gostosão com ser o único homem da terra.
Ouvi Yuka falando em um sussurro baixinho vindo de um chute em alguma coisa debaixo da mesa, seguido de um som de dor da boca de Fernando.
- Mas por que a pergunta? – Perguntou entre dentes tentando ignorar a dor. Por baixo de seus olhos, vieram manchas vermelhas e logo começaram a lagrimejar.
Era chegava a ser prazeroso e engraçado vê uma coisa de cara enquanto os olhos de outras pessoas se mantinham cegos.
- Nada, só queria saber, ela foi tão legal comigo.
Sorri de leve pra ele, tentando ao mesmo tempo segurar meu riso, pois sua expressão ainda mostrava dor e agonia.
- Nós acabamos marcando de sair.
- Quando? – Yuka ficou mais atenta, parecendo mais interessada no assunto.
- Hoje à noite. – Me olhou com dó, como se estivesse pedindo ajuda
Olhei para Yuka e seus dentes trincavam.
- Aonde vocês vão? – Perguntei.
- Não sei ainda, mas calma meninas têm Fernando pra todas. – Engoliu a dor e exibiu-se com um sorriso bem satisfeito.
As imagens de Vivian, o sangue que escorria por sua boca vinham seguidas de tantas que o sonho me mostrou, sua pele fria e pálida, seus olhos arregalados, sua pupila mostrando o vazio e os cortes pelo seu corpo, não tinha nenhum machucado como se tivessem batido nela, apenas cortes profundos.
Yuka do nada modificou completamente sua expressão, tornando-a rígida e furiosa. Levantou com elegância, talvez querendo manter a postura de pessoa forte que não ligasse pra nada e caminhou ate a porta por onde nós havíamos entrado. Fernando parecendo confuso sem entender nada saiu correndo atrás dela enquanto eu fiquei pensando, no garoto dos olhos vermelhos, tentei enfiar na minha cabeça que não era nada significativo, que não tinha porque dá importância alguma, era apenas um sonho... Que agora estava mais pra pesadelo. Não queria mais suspense e mistério, queria respostas.
Quando descascava o pedaço de madeira na mesa, meus pensamentos estavam longe, nem percebi quando minha mão acabou escorregando por ela, cortando a palma.
- Droga! – Sussurrei pra mim mesma.
Peguei todos os lenços que havia pela mesa. Virei o pulso para cima avistando o relógio, e foi então que me
lembrei da hora.
- Droga! Droga! Droga! – Sussurrei pra mim de novo.
Atrasada de novo! Dessa vez acho que iria escrever ao invés de redação um livro. Peguei os lenços e os pressionei no meu corte. Sai correndo pela porta, batendo na garçonete que vinha segurando uma bandeja cheia de copos de refrigerantes. Passei pela porta antes que desse para ouvir o palavrão que ela acabara de dizer.
Com o liquido vermelho escorrendo pela minha mão, e os lenços totalmente encharcados com meu sangue, a área cortada fazia minha mão ficar mais dolorida, ardendo como se eu a tivesse posto no fogo.
- Que caminho era mesmo? – Perguntei pra mim mesma, sabendo que não teria resposta. Olhando para o lado e para o outro tentando lembrar por que caminho eu tinha vindo. Eu estava perdida, não sabia para que caminho tomar, a rua estava deserta e não tinha pra quem perguntar, não dava pra voltar porque com toda a pressa sai correndo e não olhei para onde estava indo. Senti vários pingos de água cair sobre a minha cabeça, um seguido do outro. Ótimo não podia mudar para melhorar, agora chovia. O chão agora já começava a se formar poças de água. Eu já estava toda molhada, olhei para o outro lado da rua e corri até encontrar um beco com uma cobertura. Atrás de mim estava escuro demais para vê alguma coisa, o beco dava a impressão de ser grande, era um pouco estreito. Dei mais alguns passos pra trás.
Já haviam se passado uma hora e a chuva não parava, pelo contrario, ficava mais forte à medida que o tempo corria, não chegou a diminuir, e agora pra completar, o vento se tornava mais forte e mais frio. O sangramento também não diminuiu os lenços ensopados já eram inúteis, apertei com força a mão em meu peito, manchando minha blusa. Sentia o cheiro do meu sangue, meio de ferrugem, e aquilo me deixava enjoada
Atrás de mim, passos se originavam, mas estava tão distraída com meu sangue que imaginei que aquel
e barulho fosse da chuva batendo no chão de cimento, foi então que senti algo mais perto de mim, mas não virei, devia ser um gato ou coisa assim, era apenas ignorar que iria logo embora, foi o conselho que minha mãe sempre costumava a dar a mim já que não era fã de bichos peludinhos. Um braço forte e musculoso cruzou em volta da minha barriga, e uma mão áspera tampou minha boca com muita força, fazendo minha cabeça ir pra trás, de um modo que ouvi meu pescoço estalar. Com a mão sangrando tentei fazer o braço que apertava minha barriga se soltar de mim, mas nem se mexeu, apenas serviu para molhá-lo com meu liquido vermelho. Com a outra mão, puxei a mão áspera e grossa que tampava minha boca, enquanto eu me via ser puxava mais pra dentro daquele beco escuro, gritei o mais alto que pude, mas meu grito era baixo demais para alguém ouvir, isso se pelo menos tivesse alguém por ali. Bati minhas pernas, dando pulos para que me soltasse. Quando mais pro fundo ele me puxava mais inconsciente eu ficava, minha visão estava toda embaraçada, conseguia vê poucas coisas. Sentia-me fraca por isso parei de lutar. Deixei que ele me levasse para o lugar que ele queria.
Finalmente quando parei de me mexer ele me colocou deitada no chão sujo e molhado atrás de uma lixeira de ferro que cobria quase todo o meu corpo, olhei para o lado, e a única coisa que conseguia notar era uma luz vinda de um buraquinho debaixo do lixo, minha respiração estava ofegante, mas conseguia ainda ouvir o barulho da água caindo.
Senti uma coisa molhada e pegajosa cheia de desejo subir pelo meu pescoço, passando devagar pela minha mandíbula ate minha bochecha. Eu pensava que queria que tudo aquilo acabasse logo.
Olhei para o meu assassino, não conseguia enxergar seu rosto por conta da minha visão, e porque ele usava uma mascara preta. Talvez sentisse medo de que se eu sobrevivesse eu o denunciaria, mas não, eu não o faria, queria apenas que aquilo acabasse o mais rápido possível, não queria sentir dor, nem agonia. Fechei os olhos, tentando me sentir preparada, mesmo sabendo que não estava.

*****
Acordei em uma sala branca, primeiro fiquei perguntando onde estaria meu pai, algo em mim dizia que eu não teria sobrevivido aquele fato que ocorreu. Eu estava com saudade, queria muito vê-lo e abraçá-lo com toda a força que me restava. Virei o rosto para o lado bem devagar com a esperança de encontrá-lo, me olhando e sorrindo, mas apenas um espelho e um telefone
cinza. Levantei meus olhos e encontrei um soro pela metade. Desviei o olhar para os meus braços, estava cheia de agulhas e tubos, dei uma olhava em mim, estava vestida com uma camisola de hospital.
– Estou viva? – Perguntei para mim mesma por pensamento. Olhava para tudo ao meu redor tentando me lembrar o que havia acontecido comigo, suspendi as minhas mãos, a mão esquerda estava enfaixada e não tinha mais nem um sinal se sangue e nem ardia nem parecia mais dolorida. Tentei me lembrar do que tinha acontecido e prossegui em minha mente: Eu estava na lanchonete com Fernando e a Yuka, quando me cortei na mesa, e percebi que estava atrasada e que ia me ferrar (de novo), estava chovendo, o homem com a máscara de preto, beco escuro. Tive a vaga lembrança de algo que ele havia passado em meu pescoço, percorri a mão pelo meu rosto e meu pescoço, e no meio do meu pescoço, notei um pequeno corte, a tocá-lo ainda sentia uma leve dor.
- Finalmente acordou – Disse um garoto parado perto da porta em tom tranqüilo.
O encarei, ele me parecia tão familiar, mas não me lembrava da onde eu tinha visto.
Estava com uma blusa preta de mangas ate o cotovelo, usava luvas de couro pretas, e uma calça jeans normal.
- Pensei que não iria mais acordar. – Continuou ele me olhando.
- Quem é você? – Perguntei, mas minha voz mal saiu. Mas pareceu que ele pode me ouvir.
- Victor, sua irmã disse que você se chamava Anne.
Fiquei calada ainda o encarando. Sua cor pálida e seus olhos verdes... Aonde eu o tinha visto? Ele me olhava com simpatia, soltando um sorriso pequeno nos seus lábios finos avermelhados.
- Sinto muito não ter me apresentado antes. É que fiquei... – Parou. Me olhou nos olhos. – Aliviado por você ter acordado. – Continuou.
Eu continuava sem entender, calada. Aos poucos, quanto mais ele seus passos o levavam até mim, pude ir reconhecendo, ele se sentou ao meu lado, me fitava com aquele olhar misterioso, o cabelo, o rosto perfeito.
- Você é o garoto do avião! – Pensei em voz alta.
Bingo!
- Avião? – Me olhou desconfiado.
- Sim, eu me lembro de você! Você ficou sentado no meu lado no avião. – Eu não tinha nenhuma duvida, era ele sim.
- Acho que você deve está delirando. – Ele se levantou.
- Me encontrando no estado em que eu estou, tomando soro, numa cama de hospital depois de sofrer um acidente eu até poderia estar, mas não estou. Estou consciente e me sinto melhor do que nunca! – Insistir.
- Você estará bem quando o medico disser que você esta bem.
- O medico não sabe melhor do que eu!
- Sabe sim!
- Não sabe, não!
- Pare de discutir comigo!
- Você que esta discutindo comigo!
Ele bufou.
- Você esta querendo me deixar confusa, não sei o porquê mais isso não vai acontecer, você é o garoto do avião.
- Tudo bem, e se eu for? – Cruzou seus braços pálidos em volta do peito.
- Bem, se você for... Nada!
- Viu? Essa discussão não levara a gente a lugar nenhum.
- Claro que levara. Leva a conclusão de que você mentiu pra mim.
Ele suspirou. Rindo baixinho como se estivesse caçoando.
- Qual a graça? – Perguntei irritada.
- Você, tentando permanecer com a razão de qualquer jeito. Tudo bem acho que você precisa de um tempo pra refletir. Eu volto pra vê-la depois.
- Não vá!
O mistério do meu sonho estava toda focada nele, disso eu realmente sabia, não podia deixá-lo ir.
- Tudo bem – Disse ele caminhando até a porta. – Eu volto.
Eu ia dizer alguma coisa, mas não deu tempo. Depois que saiu, minha irmã entrou correndo pela porta até mim, a me ver me olhou preocupada, mas não conteve e abriu um lindo sorriso, veio flutuando em minha direção e me abraçou com toda a força.
- Anne! Graças a Deus você está bem. – Falou baixinho em meu ouvido, pude ouvir seu choro bem baixinho e suas lagrimas em meu ombro.
- Ta tudo bem Soph– Passava minhas mãos por sua costa, a apertando um pouco mais em mim.
Abraçá-la me fez entrar em um circulo de felicidade, me sentia protegida e importante. Era incrível como ela me fazia eu me sentir assim, tão única! Esta em seus braços, por mais que ela fosse mais parecida com Christine, me fazia lembrar o meu pai.
- Não se preocupe – Passando seus graciosos dedos nos meus cabelos. – Mamãe já está a caminho pra cá, apenas fique calma.
- Soph ta tudo bem. Só me diga o que aconteceu...
- Você é uma menina de muita sorte, se Victor não tivesse visto você naquele beco, acho que seria o fim.
- Eu fui... – A encarei com um medo profundo.
- Não. Ele chegou antes de o homem tentar fazer alguma coisa mais grave com você.
Soltei um ar de alivio.
- Ele está ai fora. – Sua voz era animada. Mordendo o canto da boca, me olhando daquele jeito que só eu conseguia entender o que queria dizer.
Revirei os olhos, entediada.
- Se quiser, pode ficar com ele pra você.
- Que ótimo porque ele já era meu mesmo. – Brincou.
Nós duas rimos juntas, uma da cara da outra.
Olhar em seus olhos, e perceber que eu ainda teria muitos anos pra apreciá-los me trouxe mais alegria ainda. Senti-me culpada por ao invés de agradecer ao Victor cismar uma coisa que eu não tinha certeza, talvez ele tenha razão, isso não me levaria a lugar nenhum. Os meus pesadelos eram apenas pesadelos.