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Estar naquele avião, começava a me deixar atordoada, irritada, e desconfortável. Depois do meu sonho, o garoto dos olhos castanhos esverdeados, não voltou a me olhar, nem por um segundo que fosse.
Mas isso não significava que eu também teria que parar de observá-lo.
Seu jeito era esquisito, mal se mexia, não havia comido e nem bebido nada até aquele momento.
Ele estava mais pra uma múmia do que para um ser vivo.
O remédio de dor de cabeça não fez nenhum efeito. A dor continuava forte e intensa.
Nunca havia a sentido assim tão forte. Eram raras as vezes que eu tinha dor de cabeça. Quase nunca. E nas vezes que eu teria, eram totalmente diferentes. A minha dor de cabeça “comum” costumava a ser bem fraquinha e doía em toda a cabeça. Essa latejava acima dos meus olhos e me fazia sentir como se fosse uma boneca de pano sem vida. Quase insuportável.
Depois de longas horas, finalmente pousamos. Ele e seus companheiros foram os primeiros a se levantar. Na porta de saída do avião, quem estava lá era Vivian, e em seu rosto, estava colado exatamente aquele sorriso perfeito.
Suas bochechas estavam mais rosadas, e seu batom vermelho sangue retocado. Impo
ssível não estar bonita.
Mas ao passarem por sua frente notei seu sorriso se desfazendo, ela olhou para o garoto dos olhos castanhos esverdeados e não piscou, e tive a impressão que nem respirava, ficou branca de uma forma que pareceu que tinha visto algo abominável. Estava com medo, eu pude perceber. Ao saírem finalmente, fechou os olhos e soltou um longo suspiro, voltou a sorrir como se nada tivesse acontecido. Pelo visto era a única que havia notado.
Fernando que ainda parecia preocupado, se ofereceu para carregar minhas malas. Mesmo eu tendo insistido que não precisava. Atrás de nós conseguia ouvir os risinhos de minha mãe e Sophie.
Fernando também notou, pois a cada segundo virava o rosto para olhar pra elas, que fingiam não ter feito nada de errado. Ele não se incomodou tanto quanto eu. Apenas sorriu e riu também.
Calma... – Eu dizia a mim mesma por pensamento.
Chegando ao portão de desembarque, insistiu em pegar o número do meu celular, caso não nos víssemos mais. Despediu-se com um beijo bastante molhado em minha bochecha. – Que depois tive que passar a manga da minha blusa várias vezes para tirar a sensação de sentir minha bochecha encharcada de baba – Tinha certeza que aquele momento minha mãe nunca iria esquecer, principalmente Sophie. Se tivessem a chance, tirariam uma foto. Mas isso só se quisessem ficar subterradas vivas debaixo da terra.
- Mal chegou e já tem um namoradinho é? – Perguntou Sophie, sem olhar para mim, escondendo um riso de satisfação.
Naquele ponto eu já tinha me esquecido da raiva que eu estava dela e da minha mãe. Agora meus pensamentos estavam direcionados só aqueles garotos, eu não conseguia parar de pensar naquele olhar, e na expressão de Vivian, por isso nem ouvi a pergunta ou a suposta piadinha sem graça que Sophie acabara de fazer. Só andei silenciosamente por todo o aeroporto até chegar ao táxi.
O aeroporto, pelo o que minha tia havia contado para minha mãe, ficava agora um pouco mais longe de sua casa. Depois da separação mesmo tendo ganhado a casa, não suportava mais viver ali por causa das suas lembranças. Por isso decidiu se mudar para outra. E pelo o que haviam comentado, era enorme, a mais longe que fosse, não gostava de lembrar de nada que fosse do seu ex-marido.
Por toda nossa viagem, olhava pela janela, tudo parecia ser tão diferente, tão novo. Agora aquele era o meu lar e eu tinha que me conformar e principalmente, me acostumar com tudo que viesse pela frente.
Mesmo já estando em uma cidade desconhecida, com tudo mudando tão rápido, eu ainda pensava no garoto do avião.
Imaginava se eu o encontrasse novamente. Me perguntava se eu estava querendo aquilo, ou se apenas estava pensando. Uma coisa rápida que se passa na mente.
Sacudi a cabeça.
Não, era apenas um pensamento bobo.
Quando estávamos já perto de sua casa, um colégio grande me chamou atenção. Ele era de quatro andares e largo. Nele, muitos entravam e saiam então à primeira pergunta que me veio em mente: Será que é esse é o meu novo colégio?
Foi então que minha mãe logo respondeu minha pergunta.
- Filha, esse é o seu novo colégio. Sua tia disse que você vai ficar na sala do seu primo. Não é maravilhoso? – Falou animada
Impressionante – Pensei.
Sophie, pelo menos parecia bem mais animada do que eu. Especialmente pelo fato de o porquê não iríamos precisar usar uniforme nesse colégio. O que também me deixava aliviada.
- Vamos Anne! – Falou minha mãe quase gritando, que já estava fora do táxi – Só não me diga que você agora quer morar dentro de um táxi, por favor!
- Calma mãe, ela só deve está pensando no namorado novo – Provocou Sophie, dando um risinho malicioso.
- Que namorado? – Perguntei. Saindo do táxi.
- Um ruivinho que ajudou você com ás malas bobinha.
- Ele não é meu namorado!
- Quem é seu namorado? - Perguntou minha mãe, se virando para me olhar.
- NINGUÉM!
Quando finalmente
sai do carro. Engoli seco, meus olhos se arregalaram ao ver a enorme casa de minha tia. Nunca havia visto casa mais bonita que aquela. Toda branca, de dois andares, uma estrutura antiga que me encantou. O que eu mais amava, era casas com estruturas de antigamente, pareciam ser tão mais perfeitas dos que as atuais que parecem ser sem vida. Aquela eu diria que estava mais pro ano de 1737.
Havia no segundo andar duas varandas e ao lado direito, outra bem escondida pelas árvores, pude notar que um galho grosso á invadia.
A grama que a rodeava era brilhante e bem verdinha.
Sophie e minha mãe começaram a caminhar ate a enorme casa.
Mas eu permaneci parada como uma estatua. Paralisada com tanta fantasia que aquela casa trazia para meus pensamentos.
Uma gota acabou caindo na ponta de meu nariz, que me fez voltar a si. Olhei para o céu, e suas nuvens estavam acinzentadas, ao olhá-las, a imagem daquela lua veio em meus olhos.
Então a chuva começou a cair sobre mim.
- Anne! Saia da chuva! – Gritou minha mãe já em frente à porta da minha tia.
Mas não me movi um centímetro.
Quem atendeu a porta foi um rapaz. Uns 20 cm mais alto que eu, como ele estava sem camisa, vi seus músculos bem definidos sua pele bem bronzeada. Aproximei-me mais até poder vê-lo com mais clareza, vi nele alguma coisa bem familiar, mas não sabia o que. Dei mais alguns passos e depois de um tempo curto finalmente consegui reconhecê-lo.
Will, seus cabelos loiros queimados agora eram curtos, não vi mais nele nem a metade daquele menininho de antes.
Não entendia o motivo, mas não queria que ele estivesse completamente mudado,
queria que ele me olhasse como olhava antes, que não desviasse seu olhar de mim nem por um segundo.
Estava sentindo atração física por ele? Que ridículo da minha parte.
Isso eu não esperava nem um pouco de mim. Tentei arrancar isso da minha cabeça a todo custo enquanto caminhava ate a porta.
- Anne! Veja como você está toda molhada! O que deu em você? – Reclamou minha mãe. – Quero vê se você pega um resfriado! – E voltou sua atenção para Will. – Querido, quanto tempo, veja como você cresceu! Está tão bonito... - Disse minha mãe, dando um leve tapinha em seu rosto – Você deve lembrar de suas primas, Sophie e Anne, não?
Conclui naquela hora que minha mãe era uma pessoa muito estranha e esquisita.
Will devia ter percebido também, mas apenas fez que sim com a cabeça, e sorriu timidamente para nós.
- Acredita que Anne não se lembrava de você? – Informou minha mãe.
Aquele comentário deveria me matar de vergonha, isso se eu estivesse prestando atenção nele.
- Christine! – Se ouviu o grito da minha tia de dentro da enorme casa, correndo de braços abertos para abraçar minha mãe com toda a força que tinha.
As duas se abraçaram por longos minutos, parecia que ao invés de oito, não se viam há mil anos. Minha mãe sempre me dizia que ela e minha tia eram como eu e Sophie, melhores amigas. Quando pequenas, falavam que iriam morar juntas quando fossem maiores, mas o trabalho de minha tia acabou afastando as duas, mais do que se podia imaginar. Minha tia veio pra Belém, aonde conheceu meu tio, e minha mãe ficou em São Paulo com meu pai, as duas acabaram perdendo muito contato por causa disso, minha mãe mal parava em casa por causa do trabalho, então não conseguia retornar as ligações de minha tia. Eram raras as vezes que conseguia, agora finalmente, depois de tantos anos, se reencontraram.
- Pensei que tinham mudado de idéia e não vinham mais – Disse minha tia.
Bem que eu queria – Pensei.
Depois do longo abraço, minha tia se dirigiu a mim e Sophie, ela nos agarrou em um único abraço, e nos apertou juntas, por um momento pensei que ela ia nos apertar ate eu e Sophie botarmos tudo para fora.
Minha tia era extremamente forte, e quando estava emocionada ou empolgada, não sabia controlar sua força.
- Minhas queridas, como vocês cresceram! Anne você esta toda molhada! O que aconteceu? Vieram nadando até aqui? – Falou se segurando pra não rir da própria piada que fizera.
- É que ela esta meio lenta
hoje – Falou minha mãe, sorrindo para disfarçar. Passando sua mão pelo meu ombro.
Olhei ao redor. Sua casa era de cair o queixo, linda, com um aroma de rosas pelo ar, cheia de quadros e principalmente flores de todas as cores e formas. As escadas de mármore eram gigantescas, o piso era um azulejo branco sem nenhum risco.
- Estão tão lindas... Aposto que as duas já têm namorados. – Comentou, apertando minhas bochechas até ficarem vermelhas.
A verdade é que eu nunca havia tido um namorado, mas Sophie sim. Namora desde os treze anos, quando deu seu primeiro beijo com um cara cinco anos mais velho que ela – O que não me surpreendeu. Sempre que estava com um namorado, ou de olho em alguém, eu era a primeira, a saber. Sentia-me a privilegiada.
- Anne conheceu o dela hoje! – Disse ela.
Sophie e minha mãe teriam planejado mesmo me matar de vergonha, parecia algum tipo de vingança, por deixá-las mofar no silêncio no avião.
- Eu não estou namorando NINGUÉM!
Mas Silvia apenas riu e deu uma piscadela para Shopie e minha mãe.
- Vá logo se trocar antes que pegue algum resfriado. Will mostra o caminho.
Will que ainda se mantinha calado, e agora não ficava mais me encarando, ou pelo menos, bem discreto. Silvia fazia questão de ir pessoalmente mostrar o quarto de minha mãe, que ficava naquele mesmo andar, quase ao lado do dela. Estavam doidas para ficarem sozinhas desde a hora que se encontraram.
O meu quarto e o de Sophie ficava no andar de cima, o mesmo andar que o quarto de Will.
Nós subimos as enormes escadas de mármore. Quando chegamos, paramos em frente à primeira porta a esquerda.
O segundo andar era parecido com o primeiro, era cheio de portas brancas, com fechaduras de ouro brilhante.
Quando a porta se abriu, me deparei com um palácio, o quarto era dez vezes maior que o meu em São Paulo. O quarto era de cor rosa bem claro, a cama de casal, e um armário branco que ocupava toda a parede, havia uma escrivaninha simples e do lado dela um espelho pendurado na parede, sua moldura era banhada em ouro branco. Um pouco longe havia outra porta que dava para uma varanda, ela era grande de duas portas e de cada lado uma cortina branca a cobria, em sua parte superior, vidraças coloridas. Eu e Sophie entramos no quarto deslumbradas. Ela não perdeu tempo, pulou direto na cama onde enfiou o rosto entre os travesseiros, não escondendo sua felicidade.
- Nós duas vamos ficar nesse quarto? – Perguntou ela com os verdes de seus olhos mais brilhantes.
Mas Will não respondeu, deu um leve riso, apenas botou as malas dela na cama enquanto as minhas permaneceram em suas mãos, logo nos dois saímos do quarto e quando a porta se fechou, pude ouvir seu grito de felicidade.
Ele foi se dirigindo agora para a outra porta que ficava ao lado direito do quarto de Sophie. Para abrir a porta dessa vez, ele usou uma chave velha e enferrujada,
o barulho da tranca se abrindo parecia tão alta que se dava para ouvir do lado de fora da casa.
Ao vê-lo por dentro, aquele quarto não parecia ser tão diferente, era do mesmo tamanho e tudo que havia lá tinha no outro quarto: a cama de casal, o armário, a escrivaninha e um espelho, mas notei que esse era maior, ao lado da cama tinha uma varanda, mas essa não tinha nenhuma porta apenas cortinas amarelas. Entrei no quarto, fui direto até ela, e um vento gostoso bateu minha pele, e não entendi o porquê ele me fez sentir uma saudade de meu pai, foi como se eu pudesse senti-lo. Pude ver que um galho grosso a invadia, então percebi que essa era a mesma varanda escondida entre as árvores que eu havia visto.
- Anne? – Chamou uma voz grossa atrás de mim.
Olhei para trás e vi Will, e atrás dele mais ninguém. Então aquela voz só poderia ter vindo dele, quase não acreditei, era primeira vez que eu a ouvia, algumas vezes eu teria imaginado que poderia ser mudo ou apenas tinha vergonha de sua voz, mas ela encantou meus ouvidos, como poderia sentir vergonha?
Fiquei olhando para ele sem dizer nenhuma palavra.
Dessa vez a muda era eu, não conseguia pensar em nada para dizer para ele.
Sua mão estava estendida segurando a chave.
- O banheiro fica no final do corredor. Meu quarto é o da frente da sua irmã, se você precisar de alguma coisa é só bater lá.
- Ah... – Foi o que eu consegui dizer.
- Então... A gente se vê no jantar.
Eu estava sem palavras, com certeza ele não era mais aquele menino calado.
Após ele sair do quarto. Dei novamente uma olhada no meu novo quarto. Até que poderia não ser tão ruim morar ali, mas
mesmo assim ainda estava chateada por ter vindo. Fui até a frente do espelho e dei uma boa olhada para o meu reflexo e vi um rosto conhecido, uma garota de cabelos ate os ombros, cacheados cor de chocolate – Infelizmente puxei os cabelos de meu pai – magra, sem graça, com roupas comuns, uma vida comum.
Melhor que isso eu não consigo ficar - Pensei.
Foi então que me aproximei, olhei para a moldura do espelho, sua moldura era prata cheia de desenhos de criaturas místicas esculpidas. Passei meus dedos de leve sobre eles, conseguia sentir seus rostos, todas as suas características. Estava tão concentrada na minha avaliação que tomei um susto quando ouvi um barulho vindo das árvores. Fui até a varanda, mas não havia nada além delas, olhei para o lado onde estava à rua, mas nada apareceu.
- O que estar procurando? – Surgiu Sophie.
Ao vê-la lá tão rápido e tão de repente. Dei um pulo pra trás quase caindo.
- Não sabe bater antes de entrar? – Suspirando rápido, com a mão no peito.
- Calma, eu não quis assustá-la. Eu apenas queria...
- Mas assustou! – A interrompi, indo até minha mala que estava em cima da cama.
- Você ainda ta brava por causa da mudança?
Eu não respondi.
- Anne. Me desculpe. Eu só estava pensando no que era melhor...
- Melhor pra quem? – A interrompi de novo.
Sai de perto dela ate a minha mala.
Comecei a jogar as roupas dentro do meu novo armário, não me importando se ficariam amassadas ou desarrumadas.
Ela andou pelo quarto até finalmente se sentar na cama, do lado de minha mala.
- Vai ficar quantos dias sem falar comigo? – Perguntou, tirando algumas roupas minhas de dentro da mala, e as dobrando com delicadeza como sempre fizera. Sempre foi a
mais organizada também.
Dei uma olhada fria para ela, que estava de cabeça baixa fazendo bico enquanto ajeitava as roupas.
- Não adianta fazer bico! Isso não funciona mais – Pensava que não.
Ela me olhou, fazendo um bico maior ainda. Fingindo que a qualquer hora ia se afogar em lagrimas. Isto com certeza era um truque mais do que sujo. Revirei os olhos, desde pequenas sempre que eu ficava com raiva dela, ela fazia bico para mim, eu sentia um enorme sentimento de pena quando fazem bico pra mim. Eu odiava quando ela fazia isso.
- Odeio quando você faz isso pra mim...
- Eu sei - Agora ela já estava segurando o riso.
Joguei as roupas que eu segurava no chão e pulei em cima de Sophie. Sentando em seu colo. Dando um forte abraço, nós duas estávamos rindo de nós mesmas. Eu e ela não tínhamos capacidade de sentir raiva uma da outra por muito tempo, e eu sinceramente odiava não conseguir sentir raiva dela. Reconheci então que estava mesmo sendo egoísta com minha mãe, eu só queria vê-la feliz, e se a felicidade dela estava em Belém, o jeito era mesmo tentar me acostumar com a idéia.
*****
Quando todos nós estávamos reunidos na mesa de jantar, ficamos em silêncio enquanto minha mãe e minha tia conversavam sem parar. Desde que meu pai faleceu, nunca mais havia visto minha mãe tão alegre dando boas risadas como ela estava naquela noite. Sophie tinha mesmo razão, ela seria feliz aqui. Nós três só ficamos trocando olhares enquanto as duas tagarelas conversavam. Eu sentia vontade de sorrir ao ver minha mãe daquele jeito.
Como pude ter sido tão egoísta?
Resolvemos em seguida que iríamos jantar na cozinha para deixar as duas sozinhas.
- Já sabe o que vai fazer na faculdade Will? – Perguntou Sophie. Mergulhando sua colher em um sorvete de chocolate.
Desde que havíamos chegado Will mal me olhava. Parece que minhas orações antigas finalmente haviam sido atendidas.
- Não, ainda não me decidir.
- Eu estava pensando em fazer medicina, mas ainda não tenho a certeza.
- E você Anne, já sabe o que vai querer fazer? – Perguntou ele.
- Ah, jornalismo, mas também ainda não tenho certeza, minha mãe quer que eu faça algo que dê lucro.
- E ela tem razão Anne... – Completou Sophie.
- Minha mãe também fala a mesma coisa... Ela quer que eu mantenha essa casa, pra ela, essa casa é a vida dela, mas não consigo entender o que tem de tão especial aqui.
- Essa casa é enorme, se fosse minha também ia querer a mesma coisa - Disse Sophie se levantando. – Bem, eu já não sei vocês, mas eu já vou dormir.
Dizendo por fim e nos deixando sozinhos.
Nos entre olhamos por alguns minutos. Para ser honesta, também gostaria de saber, o que poderia ter de tão especial naquela casa, além do luxo.
Will também levantou, mas foi para retirar os pratos.
- Eu ajudo você – Me levantando, recolhendo meu prato.
- Minha mãe não gosta de empregadas, há muitas coisas na minha mãe que eu não consigo entender.
- Ela pode ser apenas desconfiada.
- Depois do meu pai, acho que ela chega a ter realmente um motivo pra ser tão desconfiada assim...
- As pessoas podem mudar.
Ele me olhou, e sorriu para mim.
- É. Acho que po
dem sim.
Sorri timidamente pra ele, enquanto colocava os pratos na pia.
- É a primeira vez que ouço sua voz. – Comentei.
- Quando eu era pequeno, eu estranhava muito as pessoas, na verdade eu ainda estranho só que tento ser mais educado e comunicativo. Não gosto de conversar com garotas, mas isso também era só quando eu era pequeno.
- Ah, isso explica porque não conversava comigo.
Ele riu alto, e fez uma careta de surpresa.
- O que foi?
- Nada de importante, apenas lembrei-me de uma coisa boba. Bem, acho que também já vou dormir, amanhã tem aula.
- Você esta na minha sala, não é?
- É. Infelizmente fui posto tarde no colégio. Mas acho que foi ate melhor assim. Não me dou muito bem com os caras que são da sala de Sophie.
- Por quê?
- Coisa de garoto. – Disse sem me olhar.
- Bem vou indo. Não quero me atrasar logo no primeiro dia. Seria um péssimo começo pra mim – Abaixei o olhar e fui andando ate o hall.
- Anne...
O olhei.
- O primeiro dia não é tão ruim.
- Espero que não seja...
Do outro lado, na outra sala, ainda podia ouvir um pouco da conversa da minha mãe e da minha tia. Falavam sobre bolos mal feitos. E cada comentário uma risada e um sorriso novo.
Sábado, 24 de Fevereiro de 2007.
São Paulo andava bastante quente. Parecia que eu e o resto da cidade vivíamos em um gigantesco forno. Os ventiladores e ar condicionados já tinham se tornado inúteis aquele ponto, mas nada, nem o calor infernal impedia aquelas pessoas de continuar com suas vidas.
Naquela manhã, como sempre, minha mãe havia entrado no meu quarto sem nenhuma cerimônia ou incomodo e aberto às cortinas para que a luz do sol entrasse, fazendo-a com que batesse em meu rosto. Insistia em dizer para que eu acordasse cedo para não ter insônia à noite, e fazia o possível e o impossível para que isso não acontecesse. Era extremamente irritante! Todas as noites eu as fechava com a esperança de que um dia eu pudesse acordar a hora que eu quisesse, sem ser incomodada por qualquer raio de sol que invadisse meu quarto.
Eu mal conseguia abrir os olhos por causa da claridade, tentei olhar para o relógio que estava no criado mudo com muita dificuldade, eram apenas 07h00min da manhã.
Que mãe obriga a filha há acordar essa hora em pleno sábado? Ah é, a minha!
Revoltada, tentei de todos os modos voltar a dormir, mas já era completamente inútil.
Sem esperanças de recuperar meu sono, levantei e dei uma olhada em Sophie que dormia em um colchonete ao lado da minha cama. Enquanto seu quarto estivesse em reformas, teria de me acostumar com sua presença ali.
Dormia tão profundamente que nem se deu conta que já era de dia, e nem se incomodava com a baba que escorria da sua boca ao travesseiro.
Sophie era apenas um ano mais velha que eu, minha melhor amiga, à pessoa que eu mais confiava, minha irmã. Ela era a garota mais linda que eu já havia visto. Seus cabelos grandes castanhos claros preenchiam todo o travesseiro, sua pele branca igual leite e seus olhos verdes, tão claros que chegavam a brilhar.
Sempre tínhamos sido muito ligadas, uma com a outra, nas brigas ela sempre estava ao meu lado, disposta a me defender, me apoiava em qualquer decisão que eu tomasse e eu sabia que sempre me apoiaria. Diferente de mim, ela e nossa mãe, Christine, se davam muito bem, nunca discutiam, procuravam ter uma conversa civilizada, não importando a gravidade do assunto. Eu sentia inveja dela, de como ela conseguia se manter tão calma em certas situações, como ela conseguia ser tão elegante em momentos tão... "Escrotos"
Quando eu estava vasculhando algumas fotografias antigas que minha mãe costumava a guardar dentro de uma caixa velha dentro do armário, acabei encontrando uma foto dela quando tinha a idade de Sophie. Pareciam irmãs gêmeas. No meu caso, não era parecida nem com ela nem com meu pai, e sim com a minha avó. Eu e ela éramos como unha e carne, contava tudo, o que eu sentia o que acontecia no meu dia, o que eu pensava.
O natal costumava ser o nosso dia. Nós fazíamos um doce chamado: rabanada. Pão doce e molhado coberto de canela e açúcar. Era o meu favorito, esperava o ano todo só pra poder comê-lo.
Um dia antes do natal eu ia para sua casa, bem de manhãzinha para ser a primeira a comer a primeira rabanada. Saia bem quentinha e a cada mordida, me dava uma vontade enorme de abrir um sorriso.
Mas tudo isso tinha acabado há dez anos, quando minha avó acabou falecendo no dia do natal. Eu chorei por uma semana, sem parar, dia e noite, me sentia tão sozinha, e o que mais me abalava era o fato de nem ter tido a oportunidade de me despedir dela. Dizer o quanto sentiria a falta de sua companhia... Doía só de pensar que nunca mais iria sentir seu cheiro de hortelã ou a sensação maravilhosa que sentia quando a abraçava.
Desde então nunca mais consegui comemorar o natal de novo. Um grande sentimento de ódio corria em minhas veias pela primeira vez.
Sim, eu odiava o natal.
*****
Aquela manhã parecia igual às outras. Nada de diferente, ou de interessante. Tomei meu
café da manhã e fui terminar de ler "Orgulho e Preconceito" de Jane Austen, minha autora predileta, eu amava todos os seus romances. Sempre que lia. Imaginava como era ter nascido naquela época. Tudo parecia estar mais em ordem, comparando a bagunça que é hoje... E os homens pareciam ser menos idiotas e hipócritas. Pelo menos chegavam a disfarçar melhor.
Quando terminei de fantasiar, olhei discretamente para minha mãe por cima do livro, ela estava inquieta, mordia os lábios e andava de um lado para o outro sem parar.
Desde que meu pai morreu a dois anos, em um acidente de carro, aquela agora era a sua rotina. Vivia impaciente e nervosa, mal conseguia se concentrar no que estava fazendo, por três meses, foi pedida para que se afastasse do trabalho de professora de uma das escolas mais caras de São Paulo. E isso, só a fez deprimir mais ainda.
Todas as noites, eu ia vê-la em seu quarto, a olhá-la percebia-se que havia chorado desesperadamente até cair no sono profundo. Só começou a melhorar depois das visitas que fazia frequentemente a uma psicóloga por insistência de suas amigas de trabalho.
Finalmente, depois de muitas voltas pela sala. Ela parou. E veio se sentar ao meu lado.
- Mãe, ta tudo bem? – Olhei atentamente para a expressão de seu rosto.
Nada tinha mudado. Continuava com sua ânsia, mordiscando os lábios e agora esfregava as mãos uma na outra.
- Filha, eu andei pensando muito... – Começou a dizer se aproximando mais pra perto de mim – O que você acharia se a gente saísse daqui?
- Mudar de apartamento? – Perguntei intrigada.
- Não querida, mudar, sair de São Paulo... - Ficou em silêncio por alguns segundos, suspirou, puxando bastante ar e soltando bem devagar e se pois a continuar – Minha psicóloga disse que seria muito bom pra mim, se eu começasse uma vida nova, e eu e sua irmã decidimos que seria melhor pra mim comer ela longe daqui.
Uma bomba rigorosa e violenta atingiu meu subconsciente, deixando minha mente completamente oca.
- Mas como... E que lugar seria esse? – Tentei convencer a mim mesma a manter a calma.
- Talvez, em Belém... Ai nós ficaríamos com sua tia Silvia e seu primo, Will.
Lembra dele?
Eu só havia estado lá uma vez. Quando minha tia Silvia estava se divorciando do seu marido, meu Tio Ben. Um advogado de sucesso que estava tendo um caso com sua secretária.
Ainda consigo me lembrar dos detalhes. Chorava quase sempre, às vezes chegava a ficar trancada no quarto com minha mãe durante horas. Ela não permitia que minha mãe falasse com meu pai ou comigo e minha irmã, porque o seu pensamento havia se tornado egoísta, e pre
conceituoso. Achava que todos os homens eram iguais. Mentirosos e traidores. Nas suas conversas, conseguia ouvir pouco atrás da porta. Alertava minha mãe para ter cuidado, para ficar de olho para nunca confiar em nenhum homem.
A vontade subia ate minha garganta e ficou engatada ali. Queria arrombar aquela porta e dizer que era tudo mentira. Meu pai era a pessoa mais maravilhosa que existia.
Em nenhum daqueles dias saímos para nos divertir, ficávamos apenas ali assistindo tudo o que acontecia, tudo aquilo para mim, era igual a uma novela. Via meu pai andando perdido pela casa, de vez em quando, ficava parado em frente à porta do quarto, esperando saber o que se passava. Sempre que ficava nervoso ruía as unhas da mão e aquela altura eram quase inexistentes. Queria contar o que eu havia ouvido e o que eu via, mas não conseguia.
Eu era uma menina de oito anos com mente mais elevada que as outras daquela idade. Will tinha nove, a mesma idade de Sophie na época. Ela como sempre, linda, desde pequena, nunca cortou seus longos cabelos, sempre o manteve longo. Minha inveja era inevitável em relação a sua beleza, até que aprendi com o tempo a vê beleza de outra forma, não apenas no físico.
Eu e meu primo nunca havíamos nos falado, ele parecia muito distante ou até assustado.
Quando nos vimos pela primeira vez. Ele não falou nada, nem mesmo um simples “Oi”. Não sorriu, e nem mostrou entusiasmo com a nossa presença. Ficava apenas me encarando sério e calado. Procurei não me preocupar com seu silêncio.
- Ele deve está passando por um momento muito difícil – Comentava Sophie.
Procurei entender, mas mesmo assim não pude evitar de me sentir incomodada pelos seus olhares constantes. Notei que nem por um segundo desviava o seu olhar. Parecia que ia me comer com os próprios olhos. Por toda nossa estada em Belém eu tentava ao máximo ignorar toda aquela novela, mas era impossível. Finalmente acabou quando voltamos para São Paulo. O que me deu um grande alivio.
- Não! – Menti descaradamente – Por que precisamos mudar?
- Anne, eu vou me sentir melhor se formos, e gosto da companhia da sua tia Silvia... Eu já conversei sobre isso com sua irmã e ela achou a idéia ótima. Qual o grande problema em nós irmos pra lá?
- Eu não vou! Eu não quero deixar minhas amigas, minha escola, eu não vou! – Repeti.
A verdade é que eu não tinha muitas amigas, as meninas eram bastante frescas e metidas de nariz em pé. É como dizem: Melhor sozinha do que mal acompanhada... Mas aquilo não deixava de ser um argumento, e também, foi à primeira coisa que passou pela minha cabeça.
A escola até que era boa, não tinha nada do que reclamar dela. Excerto por algumas coisinhas “pequenas” no banheiro feminino e o uniforme.
- Você vai fazer novas amigas, e com o tempo você vai acabar se acostumando, e pode ate chegar a gostar de lá!
Eu abaixei o olhar.
- Sinto muito, mãe.
- Anne, por favor... 
Sem olhar pra sua expressão, ignorando seu chamado. Fechei o livro e fui direto para o meu quarto, batendo a porta com raiva, esquecendo que Sophie ainda dormia.
- A casa vai cair ou é só impressão minha? – Perguntou ela, com os olhos ainda fechados.
- Como você pode concordar em se mudar? Seu quarto estar sendo todo reformado. Você tem amigas aqui e a escola ainda!
Abriu os olhos devagar, revelando aos poucos seus verdes cristalinos.
Permaneceu calada por alguns minutos. Apertando seus lábios carnudos, transformando a linha da sua boca em uma reta.
- Anne... Veja bem... O apartamento já foi vendido. A nova proprietária que estar reformando o quarto. Nós temos só uma semana para sair, e quanto ao colégio, tudo bem e as minhas amigas, a gente se fala pelo MSN, e nas férias eu posso vir visitá-las – Explicou em tom de voz calmo – Eu to pensando no melhor pra mamãe. E você?
- Não acredito! Porque vocês não me disseram nada? E o pior é que eu nem tenho escolha! Como vocês puderam fazer isso comigo? Não é justo! Como VOCÊ pode fazer isso comigo?! – Eu não cheguei a perceber no momento, mas já estava berrando.
- Desculpa Anne... Pare de ser tão egoísta!
- Eu já não tenho escolha!
Conhecia-a o bastante para saber exatamente como ela estava se sentindo. E eu, agora tentava não me importar, embora eu me importasse muito. A parti daquele dia, eu parei de dirigir qualquer palavra para ela ou para minha mãe. Me sentia tão traída, mais da parte da minha irmã. Era a primeira vez que ficávamos sem nos falar, primeira vez que ela não me apoiaria na minha decisão. Mas ela também me conhecia o bastante para saber muito bem que se me dissessem algo sobre isso antes, eu faria de tudo para não ir.
Eu já estava com as malas feitas, esperando no carro junto com Sophie, enquanto minha mãe entregava as chaves do apartamento à nova proprietária. A ver fazendo aquilo me fez ficar com mais raiva ainda. Fechei os olhos, esmagando meus lábios um no outro e suspirando fundo. Em meus pensamentos eu dizia que nunca mais falaria com nenhuma das duas.
Do meu lado, Sophie estava de cabeça baixa, em uma voz roca, me pedia desculpas sem parar, e eu fingia não ouvir nenhuma palavra que dizia.
Já estávamos a caminho do aeroporto, passando em frente de prédios, casas e shoppings, a saudade já começava a surgir à medida que nos afastávamos deles.
Como eu poderia me acostumar?
Passei em frente ao meu antigo colégio, e lá estavam alguns alunos de cursinho usando o uniforme que eu particularmente achava ridículo por deixarem os alunos parecendo um bando de quadrados ambulantes.
Viemos em silêncio todo o caminho. Ao chegar, vimos que nosso vôo estava atrasado, nada além de uma olhada, nenhum resmungo. Minha mãe e minha irmã não viram alternativa se não sentar e esperar e assim fizeram. Estava nervosa e chateada demais ainda pra sentar ao lado de alguma das duas, então fui ate uma janela me despedir calada. As olhava de canto e via seus cochichos e olhadas pra mim. Era difícil ignorar aquilo por mais que eu quisesse.
Os aviões se preparavam para a partida e eu tentava imaginar como minha vida seria de agora em diante. Eu estava com medo do que podia acontecer, se tudo desse errado lá. Apertei os punhos. Isso fazia a raiva ficar ainda mais forte. Eu ainda pretendia ignorar elas por um bom tempo. Elas merecem. Vivi praticamente toda minha vida naquele apartamento, eu não pensava nem por um momento em aceitar aquilo.
- Apreciando a vista? - Perguntou uma voz grossa atrás de mim.
Quando virei, dei de cara com um garoto que parecia ter minha idade, cabelos ruivos, olhos castanhos claros e um pouco mais alto que eu.
- Ah, sim! É uma bela vista... – Meus pensamentos ainda estavam longe, por isso mal prestei atenção no que eu havia respondido. Muitas outras perguntas se criavam na cabeça, estava viajando, ao mesmo tempo em que estava ali de costas para o ruivo, eu não estava.
Ouvi sua risada forçada, e o olhei. Levantou uma de suas sobrancelhas ruivas.
- Você tem um gosto estranho... – Comentou.
- Não é a primeira vez que ouço isso.
- Prazer, meu nome é Fernando - Disse ele, esticando a mão para apertar a minha.
- Sou Anne – Olhei sua mão esticada, e acenei com a cabeça.
Não era da minha natureza apertar a mão de estranhos.
Ele pareceu confuso, olhou para própria mão e a meteu no bolso da frente de sua calça
- Você ta indo pra onde?
- Belém - Suspirei.
- Eu também. Meus pais acham que eu devo passar um tempo com meu avô, tive uns problemas aqui e meu avô é um pouco sozinho - Disse ele passando a outra mão na nuca e parecendo ficar vermelho - E você?
- Estou me mudando pra lá – Infelizmente – Junto com minha mãe e minha irmã.
- E você ta gostando?
Preferi fingir não ter escutado aquela pergunta, queria de alguma forma esquecer que eu estava saindo da minha cidade, que eu tanto amava, pra ir para outra que eu nem conhecia direito, e nem queria me esforçar um pouco para conhecer.
Quando estava prestes a entrar no avião, dei uma ultima olhada para trás, não conseguia acreditar que ia começar a viver uma vida nova e nem sabia por onde começar. Me sentia em um beco sem saída. Sem ter mais ninguém com quem confiar, pra compartilhar aquilo que eu estava sentindo.
Aquilo era um adeus.
Entrei dentro do avião, procurando o meu assento e tombando com as pessoas que faziam o mesmo e logo depois avistei Fernando sentado em uma cadeira, do lado dele estava um velho de meia idade que já dormia e babava excessivamente, sentei do seu lado feliz por ele ter chegado primeiro a tempo de sentar na poltrona ao lado do velho babão. Minha mãe e Sophie estavam sentadas em poltronas um pouco mais a frente que a minha, do outro lado.
Chegaram a acenar pra mim, mas apenas virei à cabeça para o lado da janela.
Como elas ainda têm coragem? – Eu me perguntava.
Fazia muito tempo que não andava de avião, por isso tentei me manter calma, pegando a revista que estava atrás da poltrona da frente. Era um guia para caso houvesse algum acidente e como eu ainda estava nervosa, ter um acidente não era um bom começo para uma vida nova.
Ainda mais não desejada!
A porta do avião já estava prestes a se fechar, quando se ouviu uma voz vinda de fora. Gritando:
- Hei! Estamos aqui! – Gritou a voz que parecia ser de um garoto que entrava no avião. Junto com ele, vi uma garota e outro garoto. Ainda não havia conseguido ver seus rostos. Inclinei um pouco mais para o lado discretamente e finalmente pude ver: O primeiro garoto caminhava entre as poltronas, era bastante alto e tinha cabelos loiros ate o pescoço, sua pele era muito branca meio pálido e seus lábios eram avermelhados e tinha grandes olhos azuis brilhantes e carregava apenas o que parecia ser uma mochila cinza nas costas, usava um moletom e um jeans preto.
A garota que o acompanhava me lembrou a um anjo, ela não parecia pálida igual ao primeiro
garoto, seus cabelos avermelhados cheios de cachos grandes caiam sobre seus ombros nus, seu rosto parecia ter sido esculpido por algo divino. Todas as pessoas do avião, incluindo eu, ficaram de boca aberta. Seus olhos eram dos mesmos azuis que o do primeiro garoto. Usava um vestido branco e bem solto ate os joelhos. Belíssimo.
Mas o que mais me chamou atenção foi o que estava atrás deles. O ultimo garoto, era alto, um pouco menor que o primeiro. Tinha cabelos cor de mel, bagunçados, mas não pareciam maltratados. Seus olhos eram de um castanho esverdeado. Bem claros. E sua expressão era séria, sua pele era pálida. Seus lábios eram finos e avermelhados também.
Os três sentaram nas poltronas do outro lado perto da minha.
Eram extraordinariamente lindos. Muitos dos passageiros, discretamente ainda olhavam para eles, olhares por cima de revistas, fingindo chamar a aeromoça, levantando para ir ao banheiro.
Eles nem pareciam notar, a bela moça de vestido branco apenas ficava rindo. E seus companheiros apenas olhavam pro nada. Como se estivessem esperando pacientemente.
Eu tentava com todas as forças não olhar para eles. Como se não estivessem ali.
Voltei minha atenção para a revista que estava lendo, tentando ignorar a presença daquelas pessoas. Por uns minutos consegui me distrair, mas não consegui resistir e logo dei uma virada para ver eles novamente. Meu coração por um segundo pareceu congelado, e meu estomago totalmente embrulhado. O garoto de olhos castanhos esverdeados. Me fitava diretamente. Qualquer outro com certeza seria mais discreto, mas ele não, me olhava no fundo dos olhos. Ele continuava sério.
Os segundos que ele passou me olhando, pareciam horas. Seus olhos pareciam mostrar nada apenas o vazio. Eu não conseguia me soltar deles, é como se estivesse posto algum feitiço em mim.
Comecei a sentir calafrios. Medo, um medo o qual eu nunca havia experimentado antes. Até que fechei os olhos, apertados com toda força, forçando-os a permanecer fechados. Quando eu os abri, estava sentada pra poltrona da frente. Tratei de desviar meus pensamentos, com a esperança de aquela sensação passar. Ouvia os seus companheiros sussurrarem um para o outro. As outras pessoas do avião finalmente se distraíam, e não pareciam nem notar meu medo. É como se estivéssemos sozinhos em uma sala, aonde ninguém poderia nos vê, aonde ninguém ouviria meu socorro. Quando a aeromoça anunciou que nós iríamos decolar, soltei um ar profundo. Não via à hora de aquilo tudo acabar.
Minha tentativa de me distrair não estava funcionando como o esperado. Eu o olhava às vezes, mas ele não olhava mais pra mim. Mesmo assim sentia como se ele ainda me observasse o tempo todo. Olhei para o relógio novamente, e não era a metade do tempo que eu pensava ter se passado.
O tempo estava lento quando deveria estar rápido.
Vi que Fernando dormia com a cabeça apoiada no ombro do velho e junto com ele, babava também. Me encostei na poltrona e tentei relaxar, esquecer de tudo. Fechei os olhos, e logo sem perceber acabei caindo no sono.
Estava tudo muito escuro, mas conseguia ver as árvores grandes e assustadoras que me rodeavam, havia neblina o bastante para eu não poder ver mais meus pés. Andei desorientada por aquele lugar desconhecido, estava frio e úmido. Eu me abraçava com força numa tentativa de me manter aquecida. 
- Tem alguém ai?!
Era o que eu gritava. Gritei muitas vezes, mas nem mesmo eu conseguia ouvir minha própria voz. Ela havia sumido. Já tinha se passado muito tempo. Entrei em um desespero total e aos poucos fui perdendo as esperanças de encontrar alguém. Meus olhos começaram a ficar pesados, sentia aquela água salgada cair lentamente por meu rosto.
O que eu mais temia estava acontecendo. Meu pior pesadelo. Estava na escuridão, sozinha e assustada... Deitei no chão, encolhida, isolada, abraçando minhas próprias pernas. As horas não paravam de se passar e nada acontecia, nenhum sinal de alguém.
- Anne...
Ouvi alguém chamar meu nome. Olhei para os lados, mas nada além do vazio.
Ouvi mais uma vez.
A voz se aproximava cada vez mais, como se sussurrasse em meus ouvidos.
- Quem está ai? – Eu perguntava, mas nenhum som saia da minha boca.
De repente, um pedaço de luz apareceu á minha frente. Olhei para cima. Uma nuvem negra que escondia a lua começou a desaparecer, e finalmente a luz iluminou aquele lugar sombrio.
A minha volta, as árvores já não eram tão grandes, e muito menos assustadoras. Abaixo dos meus pés, uma areia branca e macia. Um pouco mais a frente, um balanço.
Quanto mais me aproximava, lembranças que eu não sabia que haviam existido começaram a voltar. 
Lembrei de quando tinha seis anos. Eu e meu pai adorávamos ir passear juntos, enquanto minha mãe e Sophie, como sempre, saiam para ir fazer compras. Nosso lugar favorito era o parque. Nenhum dos brinquedos que havia lá me interessava o único que conseguiria chamar minha atenção, era o balanço. Adorava quando meu pai me empurrava nele.
Costumava a falar para mim que a qualquer momento que eu quisesse eu poderia sair voando pelo mundo, que eu era o pássaro mais lindo que ele já viu. E logo, assoprava em meu ouvido.
Sentei no balanço e devagar, me embalei.
Amava sentir o vento bater em meu rosto, o jeito que ele fazia meus cabelos dançarem no ar.
- Anne...
De novo aquela voz voltou a chamar meu nome varias vezes. Tampei os ouvidos. Não queria mais ouvi-la, ela vinha de dentro da minha cabeça, eu desejava, pedia, implorava para que parasse. Ate que finalmente, o silêncio.
Um vento forte passou, e a nuvem negra voltou a cobrir a lua, novamente não conseguia ver mais nada, nem ás árvores, o balanço, não conseguia mais sentir a areia nos meus pés.
Estendi minhas mãos para frente, tentando fazer elas me guiarem, foi ai que senti algo frio tocando meus dedos.
Uma mão. Mas de quem poderia ser? Afinal, não estava sozinha? 
Senti como se meu coração tivesse vindo até a garganta, a cada pulsação forte, aqueles dedos congelados subiam pelos meus braços bem devagar, até ombros. Seus toques frios só faziam meus cabelos se eriçarem. Eu não conseguia me mexer, eu não sabia se ficava assustada ou feliz por finalmente ter encontrado alguém – Alguém completamente fora do normal.
Aos poucos a nuvem que cobria a luz da lua estava desaparecendo, eu já conseguia ver as árvores e o balanço novamente, olhei para aquelas mãos que me tocavam, eram pálidas e grossas. Levantei o rosto, nervosa pro que estava prestes a ver, e olhos vermelhos me encaravam, seus lábios avermelhados, voltaram a dizer meu nome, mas nada ouvi...
- Anne?! – Gritou.
Acordei em um pulo.
Olhei para Fernando que fazia uma expressão de preocupação.
No primeiro momento eu não consegui reconhecê-lo. Olhei ao meu redor e vi que estava no avião ainda, e com rapidez tudo me veio à cabeça, incluindo uma dor de cabeça bem forte.
O sonho parecia ter sido tão real, que me fez esquecer a minha mudança, de tudo. Não passava mesmo de um simples sonho, ou pesadelo.
Inclinei minha cabeça para o lado querendo ver se achava minha mãe e Sophie, o pouco que consegui ver parecia que estavam dormindo despreocupadas.
- Anne? Você ta legal? - Perguntou Fernando parecendo ainda preocupado.
- Sim. Eu só preciso de um copo de água – Comuniquei. Botando a mão sobre minha cabeça que doía.
Fernando chamou a aeromoça. A que foi até nós, era a mais bonita do que as outras que por sinal, pareciam ter mais de 50 anos. Seu corpo naquele uniforme justo era de dar inveja, sua cabeleira loira era amarrada em um coque e seus olhos azuis eram de encantar qualquer pessoa que os olhasse. Ela foi muito simpática comigo, comparando com as outras, foi à única que não havia feito cara feia pra mim.
- Tem certeza de que só precisa disso? Você parecia muito tensa aqui. Você só ficava falando: "Ta muito escuro” – Informou Fernando. Fazendo uma careta ao dizer o que eu falava enquanto sonhava.
- Eu estava falando? – Não falava dormindo desde os meus dez anos.
- Sim. Eu e a Vivian ficamos chamando você por um bom tempo aqui.
- Quem é Vivian?
- É a aeromoça
Fiquei pensando por alguns estantes e depois de alguns minutos Vivian apareceu com o copo de água e um remédio para dor de cabeça.
Eu apenas sorrir para ela de um jeito sem graça e ela abriu um lindo sorriso para mim, que faria qualquer cara derreter aos seus pés.
- Precisa de mais alguma coisa? – Perguntou ela.
- Não, obrigada – Respondi educadamente.
- Se precisar de mim, é só chamar - Disse por fim. E se retirou imediatamente.
- Anne, tem certeza de que estar bem? Você parece um pouco pálida.
Mas eu não consegui prestar o mínimo de atenção no que ele havia falado.
Após Vivian sair de minha frente, notei que o garoto da poltrona ao lado da minha a olhava. Um olhar muito familiar, enquanto eu o olhava, ele desviou seu olhar para mim e acabei deixando cair o copo com a água.
A sensação de quando ele havia me olhado foi como se eu tivesse levado um tiro no meio do peito.
E ele, apenas abriu um sorriso sínico no canto da boca.